Infelizmente não tenho
podido escrever tão frequentemente como gostaria. Essa rotina de
estudar e trabalhar é cansativa e pouco tempo sobra para atividades
fora dessas obrigações. Fui inventar de voltar a estudar... Pior
que até agora não consegui terminar a novela que já há muito
concluí, só falta passar para o papel, nem pude dar andamento a
outros projetos ou sequer lembrar como se toca violão. Mas isso não
importa.
Vim aqui tentar
amenizar esse silêncio, se é que é possível amenizar um silêncio.
Pois bem. O Livro de Um Desconhecido, tão prometido, já deve estar
a cansar muita gente. O tempo todo falo dele, digo que ele existe,
que está por vir, mas nada de concreto. Onde estao os exemplares
impressos?!
Muita calma! O arquivo
já foi enviado para a gráfica! Ainda no primeiro trimestre, quiçá
fevereiro, estará disponível para leitura, compra, etc. Como ainda
faltam dois meses até lá, creio ter quase um dever moral de
antecipar mais um pouco. Então, compartilho as palavras do Poeta,
comunicólogo, mantenedor do Prosa em Poema, que presta um grande trabalho de
divulgação da Literatura contemporânea, mormente lusófona, sem
faltar com textos consagrados e homenageia os mais diversos autores.
Logo nas primeiras páginas do Livro de Um Desconhecido, figurará a
opinião de Paulo Sabino, apresentando-o, que tive a horna de poder
fazer constar da minha futura obra (que já é até passado, quase).
Enquanto aguardam, podem criar ou desfazer expectativas com a
Apresentação. Eis:
O livro de estreia de
Diego Mileli como contista mostra, já no prefácio, que o escritor
não veio para brincadeiras.
Arte, aqui, é assunto
sério e, como tal, precisa ser cuidado e trabalhado com atenção e
sem meias verdades. O autor não admite concessões de espécie
alguma quando se trata da abordagem e dos assuntos tratados nos
contos que formam o "Livro de um desconhecido".
A começar pelo seu
início: a desnecessidade da obra, para o próprio autor, é latente;
é como se, para o próprio Diego, fosse um "erro" a
existência da literatura. Mas a necessidade existente, no autor, de
escrever a sua obra, fala mais alto. E essa necessidade de
escrevê-la, de escrever a obra, ao invés de deixá-la inacabada, e
essa necessidade de traçá-la ao invés de largar os escritos pela
metade, acaba por transformar o ato da criação em um ato de
cobardia. Pela falta de coragem para desistir de tudo, o homem
escreve e faz literatura.
O ato de escrever como
o ato de cobardia: a falta de coragem de homens, que podem achar-se
corajosos porque escrevem, é desmascarada. Escrever, segundo Diego
Mileli e Bernardo Soares (um dos heterônimos do poeta português
Fernando Pessoa), é um ato para os fracos.
Há, durante toda a
obra, o interesse (ainda que implícito) de ir revelando, de ir
desmascarando, de ir mostrando, que, no fundo, somos feitos de
fortalezas porém de fraquezas muito mais, que, no fundo, somos
frutos de um processo natural de seleção e que achamos que estamos
"acima" desse processo natural de seleção. O homem pode
terminar com as condições necessárias à sua própria
sobrevivência e ainda não se deu conta disso, apesar de todas as
previsões, apesar de todos os pesares causados por um processo
desastroso de industrialização e produção de "riqueza".
A dizimação do planeta que nos acolhe, pelo visto, está longe de
parar.
Se, como propalado aos
quatro ventos, somos feitos à imagem e semelhança de um ser
superior a que chamamos "Deus", o conto "Gênese"
deixa claro que esse "deus" que nos criou à sua imagem e
semelhança sabia bem o que estava fazendo, mesmo que não
imaginasse, bilhões de anos após a nossa criação, do que seriam
capazes as suas criaturas de fazer com a Terra. No conto, "Terra"
é a esposa de Deus Pai Todo Poderoso, a grande responsável pelo
surgimento das belezas mundanas no planeta que é batizado com o seu
nome.
Em "Breve história
da humanidade", há um histórico resumido do modo como fomos
arquitetando o conjunto de padrões comportamentais e de obrigações
que denominamos sociedade, resultando nos valores e nas ações
sociais tais como "roubo", "justiça",
"propriedade", "exclusão social",
"prostituição", "traição", "família"
e "adultério".
O encontro de
sociedades diferentes culturalmente mais a destruição e os
distúrbios ocasionados pelo etnocentrismo estão presentes em
"Mitologias apócrifas", conto que narra a chegada de um
estrangeiro em um povoado que tem o seu cotidiano totalmente
modificado - para pior - depois das novas regras, dos novos conceitos
e dos novos valores embutidos pelo estrangeiro na tal sociedade por
ele descoberta. São reveladas as dificuldades que as sociedades
humanas têm, desde sempre, em lidar com o que é diferente,
geralmente destruindo aquilo que estranha e desconhece.
Há espaço também
para as mazelas de uma vida moderna, onde as pessoas brigam com o
relógio - porque não sobra tempo para nada, apenas para o trabalho
e para as obrigações individuais - e esquecem de conhecer aquele
que está ao seu lado, aquele que, de repente, passa todos os dias
pela gente sem que a gente se dê conta - um vizinho, por exemplo.
São tantos os afazeres de uma vida moderna e urbana que alguns
valores são deixados para trás no meio de tanto corre-corre.
Os contos realçam
nuances de uma sociedade onde todos preocupam-se, antes e apenas, com
os seus problemas e seu bem-estar, onde os valores incentivados estão
embebidos, estão encharcados, de doenças sociais: os preconceitos,
as injustiças sociais, a desvalorização da vida.
A arte dos contos de
Diego Mileli manifesta-se sem aspirações de adoçar a boca (e os
olhos) dos leitores com linhas açucaradas, onde os sorrisos
desabrochem no porvir das páginas.
E é melhor que assim o
seja.
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