quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Apresentação do Livro de Um Desconhecido

Infelizmente não tenho podido escrever tão frequentemente como gostaria. Essa rotina de estudar e trabalhar é cansativa e pouco tempo sobra para atividades fora dessas obrigações. Fui inventar de voltar a estudar... Pior que até agora não consegui terminar a novela que já há muito concluí, só falta passar para o papel, nem pude dar andamento a outros projetos ou sequer lembrar como se toca violão. Mas isso não importa.

Vim aqui tentar amenizar esse silêncio, se é que é possível amenizar um silêncio. Pois bem. O Livro de Um Desconhecido, tão prometido, já deve estar a cansar muita gente. O tempo todo falo dele, digo que ele existe, que está por vir, mas nada de concreto. Onde estao os exemplares impressos?!

Muita calma! O arquivo já foi enviado para a gráfica! Ainda no primeiro trimestre, quiçá fevereiro, estará disponível para leitura, compra, etc. Como ainda faltam dois meses até lá, creio ter quase um dever moral de antecipar mais um pouco. Então, compartilho as palavras do Poeta, comunicólogo, mantenedor do Prosa em Poema, que presta um grande trabalho de divulgação da Literatura contemporânea, mormente lusófona, sem faltar com textos consagrados e homenageia os mais diversos autores. Logo nas primeiras páginas do Livro de Um Desconhecido, figurará a opinião de Paulo Sabino, apresentando-o, que tive a horna de poder fazer constar da minha futura obra (que já é até passado, quase). Enquanto aguardam, podem criar ou desfazer expectativas com a Apresentação. Eis:

O livro de estreia de Diego Mileli como contista mostra, já no prefácio, que o escritor não veio para brincadeiras.

Arte, aqui, é assunto sério e, como tal, precisa ser cuidado e trabalhado com atenção e sem meias verdades. O autor não admite concessões de espécie alguma quando se trata da abordagem e dos assuntos tratados nos contos que formam o "Livro de um desconhecido".

A começar pelo seu início: a desnecessidade da obra, para o próprio autor, é latente; é como se, para o próprio Diego, fosse um "erro" a existência da literatura. Mas a necessidade existente, no autor, de escrever a sua obra, fala mais alto. E essa necessidade de escrevê-la, de escrever a obra, ao invés de deixá-la inacabada, e essa necessidade de traçá-la ao invés de largar os escritos pela metade, acaba por transformar o ato da criação em um ato de cobardia. Pela falta de coragem para desistir de tudo, o homem escreve e faz literatura.

O ato de escrever como o ato de cobardia: a falta de coragem de homens, que podem achar-se corajosos porque escrevem, é desmascarada. Escrever, segundo Diego Mileli e Bernardo Soares (um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa), é um ato para os fracos.

Há, durante toda a obra, o interesse (ainda que implícito) de ir revelando, de ir desmascarando, de ir mostrando, que, no fundo, somos feitos de fortalezas porém de fraquezas muito mais, que, no fundo, somos frutos de um processo natural de seleção e que achamos que estamos "acima" desse processo natural de seleção. O homem pode terminar com as condições necessárias à sua própria sobrevivência e ainda não se deu conta disso, apesar de todas as previsões, apesar de todos os pesares causados por um processo desastroso de industrialização e produção de "riqueza". A dizimação do planeta que nos acolhe, pelo visto, está longe de parar.

Se, como propalado aos quatro ventos, somos feitos à imagem e semelhança de um ser superior a que chamamos "Deus", o conto "Gênese" deixa claro que esse "deus" que nos criou à sua imagem e semelhança sabia bem o que estava fazendo, mesmo que não imaginasse, bilhões de anos após a nossa criação, do que seriam capazes as suas criaturas de fazer com a Terra. No conto, "Terra" é a esposa de Deus Pai Todo Poderoso, a grande responsável pelo surgimento das belezas mundanas no planeta que é batizado com o seu nome.

Em "Breve história da humanidade", há um histórico resumido do modo como fomos arquitetando o conjunto de padrões comportamentais e de obrigações que denominamos sociedade, resultando nos valores e nas ações sociais tais como "roubo", "justiça", "propriedade", "exclusão social", "prostituição", "traição", "família" e "adultério". 

O encontro de sociedades diferentes culturalmente mais a destruição e os distúrbios ocasionados pelo etnocentrismo estão presentes em "Mitologias apócrifas", conto que narra a chegada de um estrangeiro em um povoado que tem o seu cotidiano totalmente modificado - para pior - depois das novas regras, dos novos conceitos e dos novos valores embutidos pelo estrangeiro na tal sociedade por ele descoberta. São reveladas as dificuldades que as sociedades humanas têm, desde sempre, em lidar com o que é diferente, geralmente destruindo aquilo que estranha e desconhece.

Há espaço também para as mazelas de uma vida moderna, onde as pessoas brigam com o relógio - porque não sobra tempo para nada, apenas para o trabalho e para as obrigações individuais - e esquecem de conhecer aquele que está ao seu lado, aquele que, de repente, passa todos os dias pela gente sem que a gente se dê conta - um vizinho, por exemplo. São tantos os afazeres de uma vida moderna e urbana que alguns valores são deixados para trás no meio de tanto corre-corre. 

Os contos realçam nuances de uma sociedade onde todos preocupam-se, antes e apenas, com os seus problemas e seu bem-estar, onde os valores incentivados estão embebidos, estão encharcados, de doenças sociais: os preconceitos, as injustiças sociais, a desvalorização da vida. 

A arte dos contos de Diego Mileli manifesta-se sem aspirações de adoçar a boca (e os olhos) dos leitores com linhas açucaradas, onde os sorrisos desabrochem no porvir das páginas. 

E é melhor que assim o seja. 

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