domingo, 2 de dezembro de 2012

Ontologia Poética



Alguns amigos, por um motivo ou outro, às vezes me atribuem o predicado de poeta. Terrível como isso pode conceder uma liberdade maior que a dos demais ou, por outro lado, nos prender a monstruosas obrigações, assombrosos, imperiosos obrigatoriedades e conheceres.
 
Em certas ocasiões, ajo de uma forma pouco convencional ou penso algo que seria reprovável ou estranho, distorço o idioma e subverto-lhe as regras para adequá-lo à minha vontade. Sou, porém, absolvido da agressão ao idioma, ou à moral, ou aos bons costumes. Se me desculpo pela mácula que derramei sobre tais regras, dizem: “Ah, mas você é poeta. Tudo bem!”

Noutras situações a condição de poeta é em benefício do outro. Se, por exemplo, discordo da forma de ver em algo e exponho outras nuances e aspectos que o outro interlocutor não se havia proposto, em vez de perceber que isto é apenas por uma perspectiva de observação distinta, ele identifica em mim uma qualidade especial, o ser poeta, para se defender de não ter visto da mesma forma – o que não é falta nenhuma – como se algo se manifestasse como graça divina para o poeta.

Entretanto, nem sempre são complacentes; nem sempre são bons os ventos que me sopram. Citam um verso de alguém que eu não conheço e espantados questionam: “Como você, que é poeta, não conhece?”. Em seguida, ao meu desconhecimento comumente vêm seguros em minha defesa: “Você conhece sim, só não está lembrado.”

Ou impõem essencialidades e afirmam confiantes: “você que é poeta sabe que...” Constrangem-me a concordar e obrigam-me a constranger se não condigo com essas características, com essa tal mente ou pensamento geral dos poetas que me impelem a saber ou concordar que.

Pergunto-me se há alguma espécie de estatuto do poeta, direitos e deveres fundamentais especiais, regras específicas para se ser poeta, uma essência do poeta que inclui uma série de exigências de conheceres e aceitação de sei lá quais dogmas e, em vista disso, gozar de concessões e garantias mais amplas ou de outra ordem. Pergunto-me se a poesia depende de classificações, determinadas leituras obrigatórias, escolas, correntes, etc. Se sim, chegaremos a um problema de “poesia original”, a primeira, sem nenhum desses pré-requisitos. Sinceramente, não compreendo.

Então, amigos, escrevo-lhes este recado:

Não sou poeta. Nunca me afirmei poeta. Já até, em vão, tentei descobrir o que seria. Drummond diz que não é poeta quem escreve por dor de cotovelo ou esporádico contato com as forças líricas; que se deve escrever com esforço, suor, trabalho e retrabalho, por ofício. Como vou discordar? Afinal, foi Drummond! Eu, todavia, faço tudo o contrário. Escrevo se me dói. Escrevo se me vem de repente uma sensação que me domina e me utiliza para imprimir-se no papel. Além disso, não tenho paciência para pensar em palavras, para trocar versos e não consigo levar mais que vinte minutos para aprontar um poema. Quando da publicação eu até dou mais uma olhada, é verdade, confiro a pontuação, mas são retoques, meros detalhes. Nada essencial.

Até hoje não li “Os Lusíadas”, “Ilíada” ou “Divina Comédia”. Confesso que acho extremamente chato “Espumas Flutuantes”. Sou suficientemente herege para, afastando-me dos versos, afirmar que Guimarães Rosa é enfadonho; que não prendeu minha atenção até o fim “Orgulho e preconceito”; que o tal Dom Quixote é intragável e que as partes boas dos dois volumes são poucas, preferindo eu, então, a versão resumida, para-didática, para crianças. Apenas acometeu-me o acaso de apreciar umas literaturas que nem faz sentido citar, pois não me absolveria do crime de ainda não ter lido “1984”, que acho deve ser interessante e seria o livro que as pessoas mais mentem que já leram. Lerei, pretendo. Mas ainda não li!

Ah, vocês que tiveram estômago e não se enojaram por completo até agora, preparem-se para, aliando-se aos demais, que já interromperam a leitura, decretarem-me a pena capital, aterrados por minha derradeira confissão. Não gosto de poesia. Isso mesmo! Não gosto de poesia!

Não gosto de poesia telegramática, que em palavras soltas quer esconder um ‘mistério’; que quer ser profética e camufla o que quer dizer, se é que há algo. Parece-me querer se atribuir um valor que não tem, uma qualidade de gênio incompreendido a quem escreve e uma tal capacidade metafísica a quem gosta. Quem crê não haver sentido naquelas coisas se envergonha por não ter conseguido entender e corre o risco de dizer gostar para não ser mal visto.

Além disso, não gosto de poesia prolixa ou pernóstica. Detesto aquelas que tanto se esmeram em palavras pomposas e termos de poesia; que muitas vezes por trás da beleza da forma, pela riqueza vocabular e pela série de inversões, penumbrado em métricas clássicas, esconde que pouco ou nada tem a dizer.

Entenderam? Não posso ser poeta porque poeta para ser poeta tem que gostar de poesia, não? Se não gosta, o que escreve é outra coisa. Escreve de outro modo se necessitar escrever, creio. Talvez eu tenha em algum momento escrito essas tais poesias. Mas, foi por acaso ou por não o saber ou poder impedir. Se o fiz, não gosto.

Por último, e sobretudo, tenho certeza que não gosto de poesia – às vezes detesto! – quando estou em um bar da lapa, na Cinelândia ou caminhando pela Av. 1º de Março e alguém com uma série de papéis recortados, com letra impressa neles, me interrompe e pergunta: “Você gosta de poesia?”

27-11-12

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