Alguns amigos, por um motivo ou
outro, às vezes me atribuem o predicado de poeta. Terrível como isso pode
conceder uma liberdade maior que a dos demais ou, por outro lado, nos prender a
monstruosas obrigações, assombrosos, imperiosos obrigatoriedades e conheceres.
Em certas ocasiões, ajo de uma
forma pouco convencional ou penso algo que seria reprovável ou estranho,
distorço o idioma e subverto-lhe as regras para adequá-lo à minha vontade. Sou,
porém, absolvido da agressão ao idioma, ou à moral, ou aos bons costumes. Se me
desculpo pela mácula que derramei sobre tais regras, dizem: “Ah, mas você é
poeta. Tudo bem!”
Noutras situações a condição de
poeta é em benefício do outro. Se, por exemplo, discordo da forma de ver em
algo e exponho outras nuances e aspectos que o outro interlocutor não se havia
proposto, em vez de perceber que isto é apenas por uma perspectiva de
observação distinta, ele identifica em mim uma qualidade especial, o ser poeta,
para se defender de não ter visto da mesma forma – o que não é falta nenhuma – como
se algo se manifestasse como graça divina para o poeta.
Entretanto, nem sempre são
complacentes; nem sempre são bons os ventos que me sopram. Citam um verso de
alguém que eu não conheço e espantados questionam: “Como você, que é poeta, não
conhece?”. Em seguida, ao meu desconhecimento comumente vêm seguros em minha
defesa: “Você conhece sim, só não está lembrado.”
Ou impõem essencialidades e
afirmam confiantes: “você que é poeta sabe que...” Constrangem-me a concordar e
obrigam-me a constranger se não condigo com essas características, com essa tal
mente ou pensamento geral dos poetas que me impelem a saber ou concordar que.
Pergunto-me se há alguma espécie
de estatuto do poeta, direitos e deveres fundamentais especiais, regras
específicas para se ser poeta, uma essência do poeta que inclui uma série de
exigências de conheceres e aceitação de sei lá quais dogmas e, em vista disso,
gozar de concessões e garantias mais amplas ou de outra ordem. Pergunto-me se a
poesia depende de classificações, determinadas leituras obrigatórias, escolas,
correntes, etc. Se sim, chegaremos a um problema de “poesia original”, a
primeira, sem nenhum desses pré-requisitos. Sinceramente, não compreendo.
Então, amigos, escrevo-lhes este
recado:
Não sou poeta. Nunca me afirmei
poeta. Já até, em vão, tentei descobrir o que seria. Drummond diz que não é
poeta quem escreve por dor de cotovelo ou esporádico contato com as forças
líricas; que se deve escrever com esforço, suor, trabalho e retrabalho, por
ofício. Como vou discordar? Afinal, foi Drummond! Eu, todavia, faço tudo o
contrário. Escrevo se me dói. Escrevo se me vem de repente uma sensação que me
domina e me utiliza para imprimir-se no papel. Além disso, não tenho paciência
para pensar em palavras, para trocar versos e não consigo levar mais que vinte
minutos para aprontar um poema. Quando da publicação eu até dou mais uma
olhada, é verdade, confiro a pontuação, mas são retoques, meros detalhes. Nada
essencial.
Até hoje não li “Os Lusíadas”,
“Ilíada” ou “Divina Comédia”. Confesso que acho extremamente chato “Espumas
Flutuantes”. Sou suficientemente herege para, afastando-me dos versos, afirmar
que Guimarães Rosa é enfadonho; que não prendeu minha atenção até o fim
“Orgulho e preconceito”; que o tal Dom Quixote é intragável e que as partes
boas dos dois volumes são poucas, preferindo eu, então, a versão resumida,
para-didática, para crianças. Apenas acometeu-me o acaso de apreciar umas
literaturas que nem faz sentido citar, pois não me absolveria do crime de ainda
não ter lido “1984”, que acho deve ser interessante e seria o livro que as
pessoas mais mentem que já leram. Lerei, pretendo. Mas ainda não li!
Ah, vocês que tiveram estômago e
não se enojaram por completo até agora, preparem-se para, aliando-se aos
demais, que já interromperam a leitura, decretarem-me a pena capital, aterrados
por minha derradeira confissão. Não
gosto de poesia. Isso mesmo! Não
gosto de poesia!
Não gosto de poesia telegramática, que em palavras soltas quer
esconder um ‘mistério’; que quer ser profética e camufla o que quer dizer, se é
que há algo. Parece-me querer se atribuir um valor que não tem, uma qualidade
de gênio incompreendido a quem escreve e uma tal capacidade metafísica a quem
gosta. Quem crê não haver sentido naquelas coisas se envergonha por não ter
conseguido entender e corre o risco de dizer gostar para não ser mal visto.
Além disso, não gosto de poesia prolixa ou pernóstica. Detesto aquelas que
tanto se esmeram em palavras pomposas e termos de poesia; que muitas vezes por
trás da beleza da forma, pela riqueza vocabular e pela série de inversões,
penumbrado em métricas clássicas, esconde que pouco ou nada tem a dizer.
Entenderam? Não posso ser poeta
porque poeta para ser poeta tem que gostar de poesia, não? Se não gosta, o que
escreve é outra coisa. Escreve de outro modo se necessitar escrever, creio.
Talvez eu tenha em algum momento escrito essas tais poesias. Mas, foi por acaso
ou por não o saber ou poder impedir. Se o fiz, não gosto.
Por último, e sobretudo, tenho
certeza que não gosto de poesia – às
vezes detesto! – quando estou em um bar da lapa, na Cinelândia ou caminhando
pela Av. 1º de Março e alguém com uma série de papéis recortados, com letra
impressa neles, me interrompe e pergunta: “Você gosta de poesia?”
27-11-12
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