Escrever sobre uma peça de teatro é a primeira vez que faço. Acho
difícil. Meu costume é de escrever no impulso, na emoção, quando
a vontade explode em mim, e não pensada e arquitetadamente. Nunca
assistimos a uma peça de teatro em casa, como um filme. Depois do
espetáculo normalmente seguem-se umas cervejas, conversas, etc.
Quando se vê, arrefeceu o pensamento sobre a apresentação,
misturando-se com tantos outros e se fazendo imperceptível e
irreconhecível lá dentro. Para permanecer por mais tempo com a
própria identidade em meio ao mar de pensamentos, há que deixar
marcas. E enquanto penso e transcervo essa introdução, ressoa
dentro de mim uma parte da trilha sonora de Cucaracha.
Sexta-feira, fui ao CCBB. Nesse centro cultural costumam ocorrer
excelentes apresentações a preços acessíveis a todos. O edifício
em si, localizado na 1º de Março, próximo à Igreja da Candelária,
Centro Cultural dos Correios, Casa França-Brasil, etc. é um prazer
de se visitar. Comprei a entrada para a peça que Vinícuis Arneiro
dirige, com texto de Jô Bilac e interpretado pelas atrizes Carolina
Pismel (Mirrage) e Júlia Marini (Vilma).
Cucaracha esconde-se na relação entre uma enfermeira, Mirrage, e
uma paciente há anos em coma, internada no hospital sem que ninguém
a visite, Vilma. No decorrer da apresentação as duas desenvolvem um
convívio de íntimo afeto e tornam-se confidentes e conselheiras.
Digo “esconde-se” pois esse desenho é apenas o lugar onde ocorre
um intenso debate sobre a vida e a existência em uma fluência
incrível, transitando suavemente entre momentos de comedia e outros
de profunda reflexão. Essa alternância alivia a tensão e o peso
dos momentos em que a crueza da existência e sua finitude, bem como
a frivolidade do cotidiano são expostas. Jô Bilac escreve sobre o
isolamento do outro, a indiferença pela vida deste e a carência de
afetos da sociedade atual em sua estrutura. Por meio da relação
entre enfermeira e paciente, permite-nos ver que a vida muitas vezes
carece de emoções e se estabelece em uma monotonia – covarde,
talvez – sem gritos, sem lágrimas, sem extravaso de si. A direção
de Vinícius de Arneiro explora as nuances do texto e conduz a
plateia a rir de si mesma sem perceber. Descontrai-se nos diálogos
que tratam da pequenez e puerilidade da existência humana, – e
mesmo terrena – da provável falta de significado. Um trabalho de
grande conteúdo, não um mero entretenimento.
A apresentação permeia um grande número de aspectos,
possibilitando analisá-la sob diversas perspectivas. O dramaturgo
constrói o texto em cima de um mosaico de questões como sobre
viver-se a vida ou ela nos viver, a liberdade ou ausência dela, as
expectativas e as frustrações, o abandono e o esquecimento, a
escassez de afetos e o não se permitir dexar que aflorem e
segui-los, a apiedação e sua construção interior. Por isso, pelo
cenário simples e funcional, pela trilha sonora que ambienta e
envolve com bela adequação ao momento, pela atuação das atrizes
Carolina Pismel e Júlia Marini, sem a qual a peça não se faria,
por isso ainda vejo o rosto das duas sob a luz amarela e ouço a
repetição daquela melodia que, juntos hipnotizam a plateia do
teatro lotado.
Cucaracha consegue fugir do destino comum de ser teatro para quem
faz, estuda, pensa teatro e o tem como meio de vida e atinge o
público em geral. A companhia Teatro Independente soube aproveitar
as características próprias dessa arte. Quem tem dificuldade em ver
o teatro como algo à parte e o crê um mero primitivo e ultrapassado
modo de cinema conseguirá ver que são artes semelhantes, porém
distintas e ambas ricas. Estão ali, próximos e enleiam. Não sei
explicar como o fazem, mas fazem.
Dois momento apenas eu não achei necessários ou interessantes, mas
nem vou comentá-los por serem pequenos ante o espetáculo e
parecerem ter agradado o apetite dos demais.
Infelizmente assisti já no final da temporada. A peça estará em
cartaz até o dia 11 de novembro, próximo final de semana, com
apresentações sexta, sábado e domingo, às 19h30 no CCBB-RJ. Para
garantir o ingresso é bom chegar com antecedênciam, pois a sala
estava lotada.
A entrada? O preço de sempre do Centro Cultural: R$ 6,00 a inteira.
Não tem porque não assistir.
Ah, Você talvez se pergunte o que Cucaracha tem a ver com a
história. Quase no final você descobre, por isso não contei.
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