domingo, 4 de novembro de 2012

Cucaracha: Última semana

Escrever sobre uma peça de teatro é a primeira vez que faço. Acho difícil. Meu costume é de escrever no impulso, na emoção, quando a vontade explode em mim, e não pensada e arquitetadamente. Nunca assistimos a uma peça de teatro em casa, como um filme. Depois do espetáculo normalmente seguem-se umas cervejas, conversas, etc. Quando se vê, arrefeceu o pensamento sobre a apresentação, misturando-se com tantos outros e se fazendo imperceptível e irreconhecível lá dentro. Para permanecer por mais tempo com a própria identidade em meio ao mar de pensamentos, há que deixar marcas. E enquanto penso e transcervo essa introdução, ressoa dentro de mim uma parte da trilha sonora de Cucaracha.
Sexta-feira, fui ao CCBB. Nesse centro cultural costumam ocorrer excelentes apresentações a preços acessíveis a todos. O edifício em si, localizado na 1º de Março, próximo à Igreja da Candelária, Centro Cultural dos Correios, Casa França-Brasil, etc. é um prazer de se visitar. Comprei a entrada para a peça que Vinícuis Arneiro dirige, com texto de Jô Bilac e interpretado pelas atrizes Carolina Pismel (Mirrage) e Júlia Marini (Vilma).
Cucaracha esconde-se na relação entre uma enfermeira, Mirrage, e uma paciente há anos em coma, internada no hospital sem que ninguém a visite, Vilma. No decorrer da apresentação as duas desenvolvem um convívio de íntimo afeto e tornam-se confidentes e conselheiras. Digo “esconde-se” pois esse desenho é apenas o lugar onde ocorre um intenso debate sobre a vida e a existência em uma fluência incrível, transitando suavemente entre momentos de comedia e outros de profunda reflexão. Essa alternância alivia a tensão e o peso dos momentos em que a crueza da existência e sua finitude, bem como a frivolidade do cotidiano são expostas. Jô Bilac escreve sobre o isolamento do outro, a indiferença pela vida deste e a carência de afetos da sociedade atual em sua estrutura. Por meio da relação entre enfermeira e paciente, permite-nos ver que a vida muitas vezes carece de emoções e se estabelece em uma monotonia – covarde, talvez – sem gritos, sem lágrimas, sem extravaso de si. A direção de Vinícius de Arneiro explora as nuances do texto e conduz a plateia a rir de si mesma sem perceber. Descontrai-se nos diálogos que tratam da pequenez e puerilidade da existência humana, – e mesmo terrena – da provável falta de significado. Um trabalho de grande conteúdo, não um mero entretenimento.
A apresentação permeia um grande número de aspectos, possibilitando analisá-la sob diversas perspectivas. O dramaturgo constrói o texto em cima de um mosaico de questões como sobre viver-se a vida ou ela nos viver, a liberdade ou ausência dela, as expectativas e as frustrações, o abandono e o esquecimento, a escassez de afetos e o não se permitir dexar que aflorem e segui-los, a apiedação e sua construção interior. Por isso, pelo cenário simples e funcional, pela trilha sonora que ambienta e envolve com bela adequação ao momento, pela atuação das atrizes Carolina Pismel e Júlia Marini, sem a qual a peça não se faria, por isso ainda vejo o rosto das duas sob a luz amarela e ouço a repetição daquela melodia que, juntos hipnotizam a plateia do teatro lotado.
Cucaracha consegue fugir do destino comum de ser teatro para quem faz, estuda, pensa teatro e o tem como meio de vida e atinge o público em geral. A companhia Teatro Independente soube aproveitar as características próprias dessa arte. Quem tem dificuldade em ver o teatro como algo à parte e o crê um mero primitivo e ultrapassado modo de cinema conseguirá ver que são artes semelhantes, porém distintas e ambas ricas. Estão ali, próximos e enleiam. Não sei explicar como o fazem, mas fazem.
Dois momento apenas eu não achei necessários ou interessantes, mas nem vou comentá-los por serem pequenos ante o espetáculo e parecerem ter agradado o apetite dos demais.
Infelizmente assisti já no final da temporada. A peça estará em cartaz até o dia 11 de novembro, próximo final de semana, com apresentações sexta, sábado e domingo, às 19h30 no CCBB-RJ. Para garantir o ingresso é bom chegar com antecedênciam, pois a sala estava lotada.
A entrada? O preço de sempre do Centro Cultural: R$ 6,00 a inteira. Não tem porque não assistir.
Ah, Você talvez se pergunte o que Cucaracha tem a ver com a história. Quase no final você descobre, por isso não contei.

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