quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Quanto cabe num dia


Quanto cabe num dia? Acordei me perguntando.  É possível se perguntar isso em termos de ocupação e resumir o que cabe num dia ao que se transcorre no tempo limite de 24h. Mas, tem de caber tanta coisa... O meu atualmente, por exemplo, precisa conter - não necessariamente para ser dia, mas para cumprir o que “preciso” ou me comprometi a precisar – jornada de trabalho, aula da faculdade, revisão de um livro, escrita de outro, leitura de textos acadêmicos, prática de violão, e uma série de outras coisas, incluindo ser, amar, pensar, essas baboseiras, além de dormir, arrumar a casa, comer, tomar banho, etc... Se eu somar as horas, tenho que meu dia precisa de mais de 24h. E nem é dos piores, talvez.

Eu diria, porém que o número de horas importa menos. Há dias maiores e outros menores. O cético cientificista diria que os dias sempre têm 24h. O que me preocupa, no entanto, não é a qualidade dos ponteiros (hoje os relógios em sua maioria nem ponteiros tem mais) em se moverem de acordo com um padrão baseado nos processos de rotação da terra e translação para definir o ano e parametrizar nossas rotinas, encontros e desencontros. 

Para mim há dias que nem existem. E outros que nem deveriam existir. E esses costumam ser longos, às vezes invisíveis e chegam até a ter a propriedade de existirem ao mesmo tempo que outro. Meu parâmetro é a vida. Quanto se vive num dia?

Os dias têm significados. Talvez sejam conceitos. Às vezes conceitos comuns à maior parte do coletivo, como 25 de dezembro como dia de festa. Mas sempre há quem não compartilhe ou outros para quem a mesma festa seja desgosto. Existem as datas comemorativas do calendário oficial que nos submete. No entanto, fora do nosso próprio mundo, dentro do planeta, são tantos calendários... E dentro do mesmo calendário, cada dia tem tantas que poucos as comemoram. Nesses casos, comemora-se de acordo com a identidade que se ocupe, ou seja, o médico comemora o dia do médico, a criança o das crianças, a mãe o das mães, o advogado o de sua profissão, o servidor público também o seu. Todavia médico, advogado e servidor público são pessoas além de suas profissões, apesar de ser comum responder com a profissão à pergunta: “Você é o que?” como se apenas pudéssemos ser algo dentro de uma lógica laboral-profissional. Ou apenas pudéssemos Ser por meio de uma profissão.

O significado de cada dia, porém, é um para cada pessoa. O dia em que conheceu quem ama, o dia em que nasceu, o aniversário de alguém... Esses dias podem assumir conotações diferentes a partir do aspecto pelo qual se os olha. O dia em que se conheceu alguém que se ama é um dia feliz, até o momento em que o relacionamento termina e ainda se sofre pelo fim. Mas o problema é quando um dia passa a ter mais dias. O que fazer quando um dia ocupa-se de tanto? Quando um dia contém, por exemplo, a alegria do aniversário de casamento, a saudade de ser o nascimento do filho que partiu, e a tristeza da morte do irmão? Ou se em meio à comemoração do reencontro com a avó, se é despejado? Nem sempre é possível repartir e organizar o horário em que as coisas têm direito de se manifestar? Os dias marcam e se somam... Ah, esses dias intrusos que se misturam, se encurtam e se prolongam, desaparecem e ressurgem quando há anos já haviam faltado. Quanto cabe num dia?

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