quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia Nacional do Livro

Nesta semana foi comemorado o Dia Nacional do Livro. No dia 29 de outubro de 1810 herdando o acervo que compunha a Real Biblioteca Portuguesa, fundava-se a Biblioteca Nacional, que a princípio chamava-se Real Biblioteca, depois Biblioteca Imperial e Pública da Corte e só em 1876, Biblioteca Nacional. Por isso, 29 de outubro é o Dia Nacional do Livro, aniversário da Biblioteca Nacional, que hoje conta com um acervo de logo, logo dez milhões de títulos, e, depois de passar pela Rua do Carmo e Rua do Passeio, 60, onde hoje é a Escola de Música da UFRJ, desde 29 de outubro de 1910 fica logo ali na Cinelândia, em frente à Câmara dos Vereadores, ao lado do Museu de Belas Artes e do Centro Cultural da Justiça Federal, também na diagonal do pomposo Theatro Municipal, na desalojadora Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. Permaneceu no Rio de Janeiro, apesar de terem tentado transferi-la para aquele edifício feio e sem graça, ao lado do esquisito disco voador do Museu Nacional no Eixo Monumental da hostil e “pouco convencional” Brasília.
Aos trancos e barrancos a Biblioteca resitste com suas inadequadas saunas para livros, infiltrações, quedas de rebocos, infestações de insetos e abandonos, como denunciaram este ano seus servidores em uma série de protestos, incluindo aquele interessante, em meio à greve dos servidores públicos federais que envolveu mais de trinta categorias. Neste protesto os servidores usaram capacetes de obra e panfletaram em frente ao majestoso prédio da Biblioteca, esclarecendo à população o descaso com que é tratado o tesouro que foi motivo de orgulho a ponto de relacioná-la no Brasil com o livro em si.
O Governo pouco se importou com as greves ou protestos e sob o argumento da democracia, manteve a sua postura irredutível e inegociável. Deixou os servidores no desamparo em reajuste “arrochista” por abaixo da inflação, e os da Biblioteca usando os capacetes durante o trabalho. Uma medida de segurança que deveria ser adotada! Mas, não. Não o fizeram, os servidores. Em outros tempos talvez houvesse fogo e rebuliços, mas hoje vivemos numa democracia. Nesse mesmo desamparo e angústia encontra-se o livro, coitado.
Não apenas o livro no Brasil é imensamente abandonado, como podemos ver pela média nacional de leitura de dois livros por pessoa por ano. Como quem lê costuma ler alguns livros por ano e um bocado lê às dezenas, realmente o livro está completamente esquecido, relegado à margem da maioria da sociedade. Não bastasse isso, há ainda o caráter duvidoso de muito do que é produzido. Não estou nem pensando na qualidade, mas no caráter mesmo. Enfim, há gosto para tudo.
Pior, esses são os lidos até o fim. Outros dois são abandonados pela metade. Por que os livros são tão chatos para serem abandonados sem terminar? E nem tudo que é lido é literário! Muitos dos livros são acadêmicos, científicos, consumidos no geral por pesquisadores ou estudantes e lidos, às vezes, apenas por obrigação. O que aconteceu com o prazer da leitura? O que buscam aqueles que buscam um livro? O tipo de leitura e não leitura refletem o tipo de sociedade em que vivemos e o tipo de indivíduo que nos fazemos. Mas, apesar de ter minhas opiniões a respeito, não pretendo responder nenhuma dessas questões.
Imprimir um livro hoje é até simples. Eu mesmo já vou para o quarto e tenho nem trinta anos. Fazê-los chegar às livrarias é mais difícil e ao leitor fora do círculo próximo do autor, quase impossível! Como não há uma cultura do livro, não o discutimos, não o idealizamos, não o compartilhamos e, até em razão do modelo de sociedade, não nos engajamos em movimentos com esse objetivo. Não dispomos de grandes jornais ou revistas literárias, apesar dos não sei quantos saraus. Por quê?
O livro não faz mais parte da nossa vida, da população em geral. O autor, talvez não busque literatura, mas sucesso individual. Outros países possuem trabalhos interessantes como a que gosto muito de ler e acredito na qualidade e potencial dela, Revista Literatas, de Moçambique. E nós, o que fazemos da literatura brasileira? Se mal lemos Drummond e se nossa experiência de leitura é a obrigação para passar de ano no colégio com o enfadonho e rebuscado O Guarani, de José de Alencar, aos 10 anos ou Espumas Flutuantes, de Castro Alves, aos 12 e desconhecemos qualquer outro tipo de literatura, o que se podia esperar? E a literatura contemporânea? Essa então…
Cada um que leu até aqui tem suas respostas, outras perguntas e talvez até discorde do abandono que digo sofrer o livro. Tanto faz. Inegavelmente os livros surgem de ideias e da organização de ideias, não importa de que ordem sejam os livros ou as ideias. As perguntas e respostas são informações, reflexão, pensamento e crítica. Estes são talvez a fonte da ânsia por conhecer, pela leitura. Fico, assim, satisfeito de ter ajudado um pouco o livro que em homenagem do dia nesta segunda-feira, ninguém comemorou. Ninguém fez festa.
Lembrei-me, como sempre, de Fernando Pessoa.

Na vesperá de nada,
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

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