Nesta semana foi comemorado o Dia Nacional do
Livro. No dia 29 de outubro de 1810 herdando o acervo que compunha a Real
Biblioteca Portuguesa, fundava-se a Biblioteca Nacional, que a princípio
chamava-se Real Biblioteca, depois Biblioteca Imperial e Pública da Corte e só
em 1876, Biblioteca Nacional. Por isso, 29 de outubro é o Dia Nacional do
Livro, aniversário da Biblioteca Nacional, que hoje conta com um acervo de logo,
logo dez milhões de títulos, e, depois de passar pela Rua do Carmo e Rua do
Passeio, 60, onde hoje é a Escola de Música da UFRJ, desde 29 de outubro de
1910 fica logo ali na Cinelândia, em frente à Câmara dos Vereadores, ao lado do
Museu de Belas Artes e do Centro Cultural da Justiça Federal, também na
diagonal do pomposo Theatro Municipal, na desalojadora Avenida Central, hoje
Avenida Rio Branco. Permaneceu no Rio de Janeiro, apesar de terem tentado
transferi-la para aquele edifício feio e sem graça, ao lado do esquisito disco
voador do Museu Nacional no Eixo Monumental da hostil e “pouco convencional”
Brasília.
Aos trancos e barrancos a Biblioteca resitste com
suas inadequadas saunas para livros, infiltrações, quedas de rebocos,
infestações de insetos e abandonos, como denunciaram este ano seus servidores
em uma série de protestos, incluindo aquele interessante, em meio à greve dos
servidores públicos federais que envolveu mais de trinta categorias. Neste
protesto os servidores usaram capacetes de obra e panfletaram em frente ao majestoso
prédio da Biblioteca, esclarecendo à população o descaso com que é tratado o
tesouro que foi motivo de orgulho a ponto de relacioná-la no Brasil com o livro
em si.
O Governo pouco se importou com as greves ou
protestos e sob o argumento da democracia, manteve a sua postura irredutível e
inegociável. Deixou os servidores no desamparo em reajuste “arrochista” por
abaixo da inflação, e os da Biblioteca usando os capacetes durante o trabalho.
Uma medida de segurança que deveria ser adotada! Mas, não. Não o fizeram, os
servidores. Em outros tempos talvez houvesse fogo e rebuliços, mas hoje vivemos
numa democracia. Nesse mesmo desamparo e angústia encontra-se o livro, coitado.
Não apenas o livro no Brasil é imensamente
abandonado, como podemos ver pela média nacional de leitura de dois livros por
pessoa por ano. Como quem lê costuma ler alguns livros por ano e um bocado lê
às dezenas, realmente o livro está completamente esquecido, relegado à margem
da maioria da sociedade. Não bastasse isso, há ainda o caráter duvidoso de
muito do que é produzido. Não estou nem pensando na qualidade, mas no caráter
mesmo. Enfim, há gosto para tudo.
Pior, esses são os lidos até o fim. Outros dois
são abandonados pela metade. Por que os livros são tão chatos para serem
abandonados sem terminar? E nem tudo que é lido é literário! Muitos dos livros
são acadêmicos, científicos, consumidos no geral por pesquisadores ou
estudantes e lidos, às vezes, apenas por obrigação. O que aconteceu com o
prazer da leitura? O que buscam aqueles que buscam um livro? O tipo de leitura
e não leitura refletem o tipo de sociedade em que vivemos e o tipo de indivíduo
que nos fazemos. Mas, apesar de ter minhas opiniões a respeito, não pretendo
responder nenhuma dessas questões.
Imprimir um livro hoje é até simples. Eu mesmo já
vou para o quarto e tenho nem trinta anos. Fazê-los chegar às livrarias é mais
difícil e ao leitor fora do círculo próximo do autor, quase impossível! Como
não há uma cultura do livro, não o discutimos, não o idealizamos, não o
compartilhamos e, até em razão do modelo de sociedade, não nos engajamos em
movimentos com esse objetivo. Não dispomos de grandes jornais ou revistas
literárias, apesar dos não sei quantos saraus. Por quê?
O livro não faz mais parte da nossa vida, da
população em geral. O autor, talvez não busque literatura, mas sucesso
individual. Outros países possuem trabalhos interessantes como a que gosto
muito de ler e acredito na qualidade e potencial dela, Revista Literatas, de
Moçambique. E nós, o que fazemos da literatura brasileira? Se mal lemos
Drummond e se nossa experiência de leitura é a obrigação para passar de ano no
colégio com o enfadonho e rebuscado O Guarani, de José de Alencar, aos 10 anos
ou Espumas Flutuantes, de Castro Alves, aos 12 e desconhecemos qualquer outro
tipo de literatura, o que se podia esperar? E a literatura contemporânea? Essa
então…
Cada um que leu até aqui tem suas respostas,
outras perguntas e talvez até discorde do abandono que digo sofrer o livro.
Tanto faz. Inegavelmente os livros surgem de ideias e da organização de ideias,
não importa de que ordem sejam os livros ou as ideias. As perguntas e respostas
são informações, reflexão, pensamento e crítica. Estes são talvez a fonte da
ânsia por conhecer, pela leitura. Fico, assim, satisfeito de ter ajudado um
pouco o livro que em homenagem do dia nesta segunda-feira, ninguém comemorou.
Ninguém fez festa.
Lembrei-me, como sempre, de Fernando Pessoa.
Na vesperá de nada,
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.
Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.
Nenhum comentário:
Postar um comentário