quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Concursos Literários

Eis que Drummond recebe o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, categoria poesia do concurso de 2012 organizado pela Biblioteca Nacional. Não seria nada demais, a princípio, tirando a "falta de criatividade" de premiar sempre as mesmas pessoas, não reconhecendo e dando a conhecer outras literaturas, de outras fontes, de outros tempos, de outros poemas do mar de gente que se propõe a escrever aqui e ali e busca publicar seus textos, e a muito custo acaba por conseguir. Ignora-se tudo isso e se premia Drummond. É mais fácil que se pôr em risco e laurear quem não é já reconhecido. Arriscar-se a dizer ser bom algo que não é (ainda, talvez) quase senso comum. Mas, das indignações a menor.

O grande problema está em que esse concurso é destinado a poetas vivos! Destaca o ClicRBS que "O prêmio, cuja relação de vencedores foi divulgada no dia 21 de dezembro, tecnicamente só aceita inscrições feitas pelo autor do livro, ou pela editora, desde que expressamente autorizada por escrito pelo autor. Organizado por Júlio Castañon Guimarães, o livro é uma edição crítica que compila os 10 primeiros títulos de Drummond. Na ficha de inscrição, o diretor executivo da Cosac Naify, Bernardo Ajzenberg, aparece como autor da obra por ser o detentor dos direitos autorais – algo refutado pelo próprio Ajzenberg, que não é nem o autor dos poemas nem do trabalho de organização crítica."

Difícil confiar na lisura de qualquer concurso. Parece não haver nem mais qualquer pudor, pois dizer que "não se tratava simplesmente de mais uma nova reedição de suas poesias, mas sim a primeira edição crítica do poeta" para ignorar toda a sorte dos poetas vivos é muita...

Não à toa a literatura nacional não desfruta de amplo prestígio. É graças, em parte, a desserviços como esse. As premiações são para poucos e somente para as mesmas figuras já carimbadas ou para um seleto grupo de amigos que se homenageiam uns aos outros em jornais, revistas, artigos, notícias, livros e concursos. Aos demais, a grande massa de desconhecidos, sem contatos, patrocínio ou sobrenome, resta-nos apenas o gosto do silêncio que é imposto. Essa piada sem graça. Ser inesquecível somente por jamais ter sido apresentado, por sermos destituídos do direito de que tenham ciência de nossa "vida e obra". Nem ao menos há direito a julgamento. Simplesmente não existe espaço. Falseia-se sua existência, mas se nega o acesso com a subjetividade daqueles que tem a chave dos portões, de quem define o que se pode e o que não se pode conhecer.

Era justamente de coisas como essa que eu tratava na parte do prefácio do Livro de Um Desconhecido (que já está na gráfica e previsão para Fevereiro) que transcrevo abaixo.


"Mas, de que importa? A quem importa? Esse é apenas mais um livro. Um livro que não possui patrocínio, que não possui contatos, que não possui indicações. As ganas do mercado fizeram com que literatura se transformasse em mera mercadoria como peso de papel. Como publicar um livro? Livro é voz e por isso só alguns têm direito. Os demais, nós, por mais que publiquemos somos presenteados com a indiferença. Como tudo o mais, o livro, a arte em geral e o direito a voz também foram transformados em mera mercadoria, submetidas simplesmente à lei da compra e venda, oferta e demanda, especulação, marketing e nada mais. Um apresentador de TV ou alguma pessoa que tenha influência sobre grande número de pessoas consegue publicar facilmente porque garante o retorno à editora; garante o lucro, pois, independente da qualidade literária o livro será comprado. O mercado editorial não é de divulgação literária, mas apenas mercado que põe em suas prateleiras o que pode ser vendido, ainda que o produto esteja estragado, que a qualidade seja baixa, que o cheiro seja ruim. Se vende, lá estará em lugar de destaque na prateleira. Mas literatura não é um produto, é arte. E disto esqueceram.

Não posso modelar minha obra ou reescrevê-la para que ela se adéque ao merchandising. Não me importa se é do tipo que mais tem vendido no mercado editorial ou se é rentável. Ao mesmo tempo em que esse mercado retira a condição artística da literatura, incutindo o caráter mercadoria ao livro, sequer presta ao autor contrapartida da possibilidade de sobrevivência. Um administrador ruim, tal como um médico ruim ou pedreiro ou vendedor ou advogado ruins, mal ou bem conseguem viver com a profissão que escolheram. Já o que opta pelo ofício de poeta com fim literário e não lucrativo-best seller, duvido que mesmo o melhor viva só de poesia. Talvez nem o escritor de “literatura best seller”, a qual provavelmente não sobreviverá mais de três anos e certamente não mais de vinte anos, consiga se sustentar por meio dela. Disse já que não se deve ser profissional, mas amador no sentido de escrever por arte, com liberdade de expôr, ideias, sentimentos, sonhos e não por comércio. Literatura que se preze não é de modsimo, não busca ser vendável, não é historinha. O fim máximo não é lucrativo; é artístico. Se a obra é mercadológica, para mim não serve.

Se eu gostaria de ter dezenas ou centenas de milhares de títulos vendidos? Claro que gostaria! Mas gostaria que gostassem da minha obra como ela é e não vou podá-la, amenizá-la para ser mais atraente ao público ou escrever uma história que não diga nada. Literatura não é mercadoria! Não é um produto feito para ser vendido, moldado ao gosto do cliente. Pelo menos a minha não é. Escrevo para satisfazer uma necessidade de transcrever-me o espírito ao papel e ele não está à venda.
 
Bem sabemos que na sociedade em que vivemos émais fácil morrer esmagado por uma máquina de  ou atropelado por um elefante na principal avenida de uma cidade grande a ser descoberto, a ter os trabalhos reconhecidos. A tentativa de ser escritor é o mais breve atalho para o fracasso. Somos uma multidão de desconhecidos, de anônimos condenados a serem autômatos. Quem pode pensar? Falar então?! Quanto mais escrever, já que os textos não têm fronteiras, podem ser traduzidos e lidos para si ou para outros, em voz alta, em qualquer parte. Mas, insisto. Escrevo. Independente do valor desta obra e das anteriormente publicadas por mim, esquecidas, empoeiradas nas prateleiras de biblioteca nenhuma, quantas obras literárias, artísticas, quantos pensamentos, quantas filosofias, ideias, trabalhos científicos não se perdem por sermos condenados à mordaça, por não fazermos parte da sociedade que decide quem vai e quem fica, quem fala e quem emudece, o que se conhece e o que se lança ao esquecimento? E assim padecemos da censura, a censura fingida que nos rouba os meios, que nos ergue muralhas transparentes em frente às oportunidades para fingir que não as alcançamos por não sermos capazes, mas elas estão ali.
 
E é aqui que se encaixa meu livro: O Livro de Um Desconhecido. Um com “U” maiúsculo para dar destaque, para dar ênfase. Encare-se-o como numeral ou artigo indefinido, tanto faz. Desconhecido também com letra maiúscula, pois é substantivo próprio. É na realidade o último sobrenome de todos nós, que ocultam dos registros de nascimento e das carteiras de identidade. Porém, “ainda continuo sonhando”."

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