segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Paris: Marcha da Intolerância


Trezentos e cinquenta mil marcharam em Paris contra a igualdade de direitos entre os seres humanos. Trezentos e cinquenta mil marcharam na cidade luz em favor da intolerância. E não, não se trata de marcha militar da ocupação nazista sobre a capital do conhecimento, das artes, da poesia, da “cultura” que a concederam a alcunha. Não é da de 1940 que falo, mas da de 2013; 13 de janeiro de 2013. A escuridão da discriminação e do medo que marchou com seu ódio sobre as vias parisienses foi outra. Cristãos, evangélicos, muçulmanos e partidos conservadores marcharam contra a igualdade entre hetero e homossexuais. Triste que as religiões se unam para pregar a intolerância, desigualdade e desrespeito. Será isso que as une em suas doutrinas?

Essa onda de agressividade ao outro encontra eco em distantes partes do mundo. Discutir é inútil, pois, de tão desarrazoados os argumentos que defendem a discriminação, de nada adianta mostrar a incoerência deles. O intolerante segue por fé, não por razão. Seja a fé que for. Os argumentos podem ser aplicados a qualquer objeto. Serão sempre falsos, mas terão sempre adeptos. Sempre os mesmos adeptos. Não percebem que o objeto do preconceito poderiam ser eles mesmos. É simples. Escolhe-se um grupo, dota-o de características universais àqueles indivíduos e identifica-as como a fonte ou o resultado dos problemas sociais; ou pior, alega que a vítima do tratamento degradante gosta de ser degradada. O argumento segue uma linha e vale-se de pelo menos uns dois ou três conceitos intangíveis como natural/anti-natural, natureza humana, moral/tradição, pureza, preservação da espécie/raça ou outras coisas do tipo que, se questionadas a fundo não encontrarão respostas sobre o que de fato são, e justamente por isso consegue ser moldadas pela má-intenção para justificar qualquer coisa.

É inadmissível que um negro, que também é vítima do preconceito de muitos, seja machista. É incoerente. Ele conhece o sabor de ser discriminado! É inaceitável que um latino seja racista, ele é também mal-visto e tido como origem de inúmeros problemas em diversas partes do planeta. É inaceitável que um estadunidense seja averso a judeus, justo o cidadão do Estado do qual mais se tem ojeriza sobre a face da Terra e cujo ódio às políticas governamentais se reflete contra seus cidadãos. É estúpido que um eslavo seja homofóbico, esqueceram que eram os “Untermenschen” para os nazistas e que, para a ignorância destes, eles deveriam ser dizimados? Esqueceram o sabor da discriminação e que os argumentos que hoje usam contra os outros é o mesmo que lhe dizimou avós? É imbecil que qualquer grupo humano seja discriminatório posto que é passível de encaixar qualquer um no argumento do preconceito de acordo com a situação, momento e conveniência do discurso preconceituoso. Por isso, o preconceituoso na maioria das vezes dirá que não o é. Começará seu discurso discriminatório e segregador com frases como: “Não sou preconceituoso, tenho até amigos (do grupo sobre o qual armará o discurso de segregação), mas...”

Choca que haja tanto rebuliço quando a questão é o reconhecimento dos direitos a homossexuais a fim de tornar-nos legalmente iguais, o que já é, no caso do Brasil, garantido pela Constituição Federal pelo reconhecimento de que há que se trabalhar pelo bem de todos sem qualquer tipo de discriminação. Qualquer dispositivo que contrarie este princípio, inclusive constitucional, porquanto este é princípio fundamental, é inconstitucional. Nem deveria haver discussão sobre casamento homossexual dentro do Estado Democrático de Direito submetido à Constituição Federal da República Federativa do Brasil. Mas, independente de lei, qualquer um que queira pensar notará que a vedação de acesso a direitos um grupo específico da população simplesmente por existir, é discriminação.

Mas, choca principalmente porque não se vê tanta discussão e mobilização contra a precarização do sistema público de ensino ou sucateamento e privatização da saúde, que é direito de todos. Tampouco se vê grande engajamento pela erradicação da pobreza e desconcentração de riquezas a fim de garantir a todos uma vida digna, como apregoa, além daquilo que é justo, até mesmo a moral cristã. Não me lembro de ter visto tanto interesse sobre os planos diretores das cidades e seus sistemas de transporte que afetam diariamente a todas as pessoas de cada cidade. Que dizer das reformas previdenciárias?! Quando se trata da retirada de direitos do todo, não há quase manifestação. Quando se trata de conceder direitos iguais a grupos discriminados, ah... Quanta gente grita! E esses que gritam nessa hora, são os que silenciam, não fazem nada quando a população em geral tem os direitos tolhidos. Melhor é estar acima da miséria geral, ainda que na mesma miséria, que bem estar junto com o todo.

Nessa cegueira não há como cuidar de si. Ou talvez justamente por nunca ter se conhecido e cuidado de si buscando a prática da própria liberdade, desenvolva tamanha cegueira. E nem adianta discursar que é liberdade ser contra os direitos iguais, pois a liberdade não pode gerar opressão, senão é opressão e não liberdade. A prática da liberdade é aquilo que não gera opressão e opressão é aquilo que impede a prática da liberdade. É um método de análise. Tal ato é de liberdade? Ele oprimiu algo? O quê? Se a opressão, ok. Se a liberdade, então não foi ato de liberdade. Por exemplo: a liberdade pode dar liberdade de escravizar? Não, porque escravizar é ato de opressão, portanto não está na esfera da liberdade. Então, nunca haverá liberdade na defesa da restrição de direitos a um grupo por sua mera existência.

Quem é contra direitos iguais, é contra a liberdade do outro. Esse medo da liberdade alheia só pode ser fruto de impulso reprimido. Não desfrutar da própria liberdade de agir gera inveja de quem a tem. O resultado disso é o preconceito contra o outro que conquista.

O preconceito além de se fundar no medo da liberdade do outro tem também alicerce na inveja das conquistas do outro. Aquele que nutre preconceito contra alguém, ou seja, que oprime com luta contra a igualdade de direitos, é incapaz de observar as próprias conquistas ou as desvaloriza e se sente ofendido pelas do outro, crendo implicar em consequente perda para si.

A necessidade de privilégio, independente de que tipo e em que ele for supostamente embasado, é medo de que o outro, no caso de igualdade de condições, se mostre "melhor", desconsiderando que "melhor" e "pior" apenas existe em "competição" e considerando um aspecto isolado, em vez do todo. Um peixe nada melhor que um pássaro, mas nem por isso um peixe é melhor que um pássaro. Todavia, o medo impede esse tipo de análise racional e o preconceituoso se obceca por aspectos específicos, isolando-os do todo e compreendendo-os descontextualizadamente. Todo preconceito - que é toda ação, omissão, discurso, etc. que é contra a igualdade de direitos, de ser - é uma falha da análise racional provocada por esta inebriar-se pelo medo.

Dada tanta violência dos discursos, sugeriria o seguinte acordo: Cada um ser tratado exatamente da forma como defende para o outro. Então, quem é a favor da legalização maconha, que tenha maconha; quem é a favor do casamento homossexual, que tenha o direito de se casar; quem defende o cerceamento de direitos a outros, que tenha seus direitos cerceados; quem defende a intolerância, estará a escolher o que quer para si. Quem defende a pena de morte... Se defende para os outros, deve ser bom, afinal, quem defende o mal, não é verdade?

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