Trezentos e cinquenta mil marcharam
em Paris contra a igualdade de direitos entre os seres humanos. Trezentos e
cinquenta mil marcharam na cidade luz em favor da intolerância. E não, não se
trata de marcha militar da ocupação nazista sobre a capital do conhecimento,
das artes, da poesia, da “cultura” que a concederam a alcunha. Não é da
de 1940 que falo, mas da de 2013; 13 de janeiro de 2013. A escuridão da
discriminação e do medo que marchou com seu ódio sobre as vias parisienses foi
outra. Cristãos, evangélicos, muçulmanos e partidos conservadores marcharam
contra a igualdade entre hetero e homossexuais. Triste que as religiões se unam
para pregar a intolerância, desigualdade e desrespeito. Será isso que as une em
suas doutrinas?
Essa onda de agressividade ao
outro encontra eco em distantes partes do mundo. Discutir é inútil, pois, de
tão desarrazoados os argumentos que defendem a discriminação, de nada adianta
mostrar a incoerência deles. O intolerante segue por fé, não por razão. Seja a fé
que for. Os argumentos podem ser aplicados a qualquer objeto. Serão sempre
falsos, mas terão sempre adeptos. Sempre os mesmos adeptos. Não percebem que o
objeto do preconceito poderiam ser eles mesmos. É simples. Escolhe-se um grupo,
dota-o de características universais àqueles indivíduos e identifica-as como a
fonte ou o resultado dos problemas sociais; ou pior, alega que a vítima do
tratamento degradante gosta de ser degradada. O argumento segue uma linha e
vale-se de pelo menos uns dois ou três conceitos intangíveis como natural/anti-natural,
natureza humana, moral/tradição, pureza, preservação da espécie/raça ou outras
coisas do tipo que, se questionadas a fundo não encontrarão respostas sobre o
que de fato são, e justamente por isso consegue ser moldadas pela má-intenção
para justificar qualquer coisa.
É inadmissível que um negro, que
também é vítima do preconceito de muitos, seja machista. É incoerente. Ele
conhece o sabor de ser discriminado! É inaceitável que um latino seja racista,
ele é também mal-visto e tido como origem de inúmeros problemas em diversas
partes do planeta. É inaceitável que um estadunidense seja averso a judeus,
justo o cidadão do Estado do qual mais se tem ojeriza sobre a face da Terra e
cujo ódio às políticas governamentais se reflete contra seus cidadãos. É
estúpido que um eslavo seja homofóbico, esqueceram que eram os “Untermenschen” para os nazistas e que, para
a ignorância destes, eles deveriam ser dizimados? Esqueceram o sabor da
discriminação e que os argumentos que hoje usam contra os outros é o mesmo que
lhe dizimou avós? É imbecil que qualquer grupo humano seja discriminatório
posto que é passível de encaixar qualquer um no argumento do preconceito de
acordo com a situação, momento e conveniência do discurso preconceituoso. Por
isso, o preconceituoso na maioria das vezes dirá que não o é. Começará seu
discurso discriminatório e segregador com frases como: “Não sou preconceituoso,
tenho até amigos (do grupo sobre o qual armará o discurso de segregação),
mas...”
Choca que haja tanto rebuliço
quando a questão é o reconhecimento dos direitos a homossexuais a fim de
tornar-nos legalmente iguais, o que já é, no caso do Brasil, garantido pela
Constituição Federal pelo reconhecimento de que há que se trabalhar pelo bem de
todos sem qualquer tipo de discriminação. Qualquer dispositivo que contrarie este
princípio, inclusive constitucional, porquanto este é princípio fundamental, é
inconstitucional. Nem deveria haver discussão sobre casamento homossexual
dentro do Estado Democrático de Direito submetido à Constituição Federal da
República Federativa do Brasil. Mas, independente de lei, qualquer um que
queira pensar notará que a vedação de acesso a direitos um grupo específico da
população simplesmente por existir, é discriminação.
Mas, choca principalmente porque
não se vê tanta discussão e mobilização contra a precarização do sistema
público de ensino ou sucateamento e privatização da saúde, que é direito de
todos. Tampouco se vê grande engajamento pela erradicação da pobreza e desconcentração
de riquezas a fim de garantir a todos uma vida digna, como apregoa, além
daquilo que é justo, até mesmo a moral cristã. Não me lembro de ter visto tanto
interesse sobre os planos diretores das cidades e seus sistemas de transporte
que afetam diariamente a todas as pessoas de cada cidade. Que dizer das
reformas previdenciárias?! Quando se trata da retirada de direitos do todo, não
há quase manifestação. Quando se trata de conceder direitos iguais a grupos
discriminados, ah... Quanta gente grita! E esses que gritam nessa hora, são os
que silenciam, não fazem nada quando a população em geral tem os direitos tolhidos.
Melhor é estar acima da miséria geral, ainda que na mesma miséria, que bem estar
junto com o todo.
Nessa cegueira não há como cuidar
de si. Ou talvez justamente por nunca ter se conhecido e cuidado de si buscando
a prática da própria liberdade, desenvolva tamanha cegueira. E nem adianta
discursar que é liberdade ser contra os direitos iguais, pois a liberdade não
pode gerar opressão, senão é opressão e não liberdade. A prática da liberdade é
aquilo que não gera opressão e opressão é aquilo que impede a prática da
liberdade. É um método de análise. Tal ato é de liberdade? Ele oprimiu algo? O
quê? Se a opressão, ok. Se a liberdade, então não foi ato de liberdade. Por
exemplo: a liberdade pode dar liberdade de escravizar? Não, porque escravizar é
ato de opressão, portanto não está na esfera da liberdade. Então, nunca haverá
liberdade na defesa da restrição de direitos a um grupo por sua mera
existência.
Quem é contra direitos iguais, é
contra a liberdade do outro. Esse medo da liberdade alheia só pode ser fruto de
impulso reprimido. Não desfrutar da própria liberdade de agir gera inveja de
quem a tem. O resultado disso é o preconceito contra o outro que conquista.
O preconceito além de se fundar
no medo da liberdade do outro tem também alicerce na inveja das conquistas do
outro. Aquele que nutre preconceito contra alguém, ou seja, que oprime com luta
contra a igualdade de direitos, é incapaz de observar as próprias conquistas ou
as desvaloriza e se sente ofendido pelas do outro, crendo implicar em
consequente perda para si.
A necessidade de privilégio,
independente de que tipo e em que ele for supostamente embasado, é medo de que
o outro, no caso de igualdade de condições, se mostre "melhor",
desconsiderando que "melhor" e "pior" apenas existe em
"competição" e considerando um aspecto isolado, em vez do todo. Um
peixe nada melhor que um pássaro, mas nem por isso um peixe é melhor que um
pássaro. Todavia, o medo impede esse tipo de análise racional e o
preconceituoso se obceca por aspectos específicos, isolando-os do todo e compreendendo-os
descontextualizadamente. Todo preconceito - que é toda ação, omissão, discurso,
etc. que é contra a igualdade de direitos, de ser - é uma falha da análise
racional provocada por esta inebriar-se pelo medo.
Dada tanta violência dos
discursos, sugeriria o seguinte acordo: Cada um ser tratado exatamente da forma
como defende para o outro. Então, quem é a favor da legalização maconha, que
tenha maconha; quem é a favor do casamento homossexual, que tenha o direito de
se casar; quem defende o cerceamento de direitos a outros, que tenha seus
direitos cerceados; quem defende a intolerância, estará a escolher o que quer
para si. Quem defende a pena de morte... Se defende para os outros, deve ser
bom, afinal, quem defende o mal, não é verdade?

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