segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O privilégio de morar na Cidade Maravilhosa



Exausto. Depois de um longo dia de trabalho o suplício do desumano calor causticante do Rio de Janeiro se faz ainda mais pesado. No verão, além da temperatura desconhecer limite, ainda o sol demora a se pôr. Ao sair do trabalho ele ainda brilha forte e sarcástico, bem na altura dos olhos, forçando-nos a quase fechá-los para tentar enxergar. É isso um perigo numa cidade de trânsito tão caótico e “livre”; onde o sinal vermelho não é garantia da para dos carros e as bicicletas acham que não são veículos e correm displicentes na contra-mão ou zigue-zagueando nas calçadas, para o pavor principalmente dos idosos. Com isso e o sol que cega, atravessar a rua é arriscado. Assim, suando e o tempo todo secando a testa e a nuca com a mão ou a camisa, segue-se ao ponto de ônibus.
“Ao ponto de ônibus?!” Deve estar se perguntando o não-carioca. Rio de janeiro: praia, calor, mulheres bonitas (nenhuma cidade anuncia seus homens bonitos), samba, futebol, etc. É crença quase generalizada que com esses dias mais longos “o carioca” aproveita para ir à praia. Já não gosta de trabalhar... Mas, quem gosta? Nas areias de Copacabana, Ipanema, Leblon, na pedra do arpoador amontoam-se milhares e milhares de pessoas! Porém se ouvirá tanto português quanto não-português. E os que falam português serão paulistas, mineiros, gaúchos, etc., em gozo de férias. O carioquês talvez se ouça no vendedor de picolé e no atendente do quiosque de preços módicos para fazer o turista feliz. Essa imagem exportada talvez só exista graças aos que acreditam nela e vêm ao Rio, às praias, para conhecer essa imagem. Lá, lotam-na, formando-a. Talvez... O carioca, coitado; malandro, esperto, sacana, do gingado e do samba nunca foi, em sua maioria, ao Cristo ou pegou o bondinho do Pão-de- Açúcar, tampouco sabe como se chega à Lagoa ou São Conrado. Sai do trabalho, se amontoa no ponto de ônibus, tentando uma vaga à sombra e depois torce para que ele para ao sinal. Se não pegar no ponto final, vai em pé. Se pegar, provavelmente vai em pé, ainda assim.
O malandro, sem chapéu branco e com sapato apertando o pé, paga a passagem – que somado ida e volta, se pegar dois ônibus por trecho, gasta diariamente em transporte 1,5% do salário mínimo – e viaja espremido até chegar em casa após as duas a três de trânsito que separam os em média 15 quilômetros entre o trabalho e a moradia. Mas, o carioca, bem humorado, divertido, transforma o translado em alegria. É sempre uma aventura garantida. Sim. O trajeto dentro daquele caldeirão normalmente empresta alguma curiosa distração, um fato inesperado para ajudar a passar o tempo. Pode ser um assalto ou um tiroteio, é verdade, mas às vezes são coisas amenas, um acidente, um atropelamento ou qualquer outra bobagem. Ah, e claro, acompanhado pelo serviço de bordo dos ambulantes que entram e saem dos ônibus ou circulam pelos corredores do congestionamento. Tudo isso à trilha sonora do radinho do motorista ou do celular de algum passageiro simpático, que, com a receptividade carioca, quer emprestar entretenimento aos que não tem um telefone musical e, entediados e tristes, dormem. Da Avenida Beira Mar a Marechal Hermes, ah, nunca se passa em branco.
Nesse trajeto o ônibus acelera, freia, para, xinga e se arrasta pela Av. 1º de março, estagna no mergulhão e em marcha Largo alcança a Praça Mauá somente para manter o mesmo ritmo, agraciando-nos com o poder admirar a inefável paisagem dos armazéns abandonados, pichados, do odor de urina e da realidade dos que dormem na rua. Bem, mas ao conforto de se estar protegido da violência do sol pela sombra do viaduto da perimetral – que, registro na história, ainda existe; ao menos por enquanto.
Por ali em algum lugar subiu um passageiro que agora, cordial, grita com a cobradora, que, animada e feliz como todo carioca, o manda tomar em tal lugar e ir para tal outro, que não vale a pena repetir. O motivo do entrevero? Bem, muitas vezes se paga a passagem com um tal cartão com o vernacular nome de Riocard, o qual combina inclusive com os tais recém inventados BRT – Bus Rapid Transit. No entanto não orna com a tupiniquinzice do VLT – Veículo Leve sobre Trilhos.
Ocorre então que a cobradora não tinha troco porque o passageiro pagou com a fortuna de vinte reais os dois e setenta e cinco da passagem. Faltam vinte e cinco centavos e o rapaz diz que vai descer na Rodoviária, que o aroma do entroncamento daquele rio lindo com a Baia de Guanabara mostra estar próxima. Então, a moça, simpática, em atenção ao cliente e preocupada com a imagem do serviço, alerta-o que melhor seria se tivesse deixado de ser sedentário e tivesse caminhado, pois era perto. No final da história ele desce sem a moeda suplicada como indulgência. A partir daí a altercação é contada e recontada meia dúzia de vezes até o fim da viagem aos passageiros que entram. Se repetida como de fato aconteceu, aí é outra história. Nos recontares o cosmopolitismo e a tolerância cariocas se desvelam. Queria o troco, era um viado – ressaltando que ninguém o questionara sobre a orientação sexual. Mas adiante era o branquelo do olho claro, que “se fosse preto”, dizia, “iam logo dizer que é favelado, bandido, arruaceiro do Jacaré.”
Passando pelo tal Jacaré, um dos lugares mais tranquilos da cidade, limpo, organizado e cheiroso, uma passageira faz um sagaz comentário com outro passageiro que se senta ao seu lado. O ônibus estava bem em frente ao local onde em Manguinhos foram construídas umas moradias populares – mais semelhantes a gaiolas, mas, um teto; afinal, pobre não tem direito de reclamar, já que insiste em viver – e também uma biblioteca, além de escola e posto de saúde. Uma das poucas e raras obras públicas em áreas como essa. Eis que a tal passageira, uma moça, de uns 40 anos aparantemente, profere indignada: “Não sei pra quê! Gastam um dinheirão com essa biblioteca. Faz aqui pra quê? É demagogia. Ninguém vai usar! É jogar dinheiro público fora. Em vez de Biblioteca tinha que ter é uma delegacia que a população ia aproveitar muito mais.” Ao que parece a moça sabia ler, pois identificou a palavra biblioteca no letreiro em frente ao edifício.
Lá pela abolição desaba a chuva de verão a testar o escoamento de água da cidade, mesmo já sabendo no que dá. A cidade mostra que as administrações municipais tinham grandes preocupações históricas e, portanto, não quiseram deixar esquecer as origens do nome do município. O “São Sebastião” ninguém lembra mesmo, ainda bem. A suburbana, no entanto, - que deixarei para as próximas gerações chamar pelo nome que hoje constam nas placas – assim como tantas partes da cidade, às chuvas de todo verão lembra-nos o rio de janeiro. Aquele que os ônibus cortam audaciosos, encharcando os pedestres, a despeito dos guarda-chuvas, nas belas ondas que fazem ao correr sobre as límpidas águas acumuladas na pista.
Os motoqueiros logo sobem nas calçadas e seguem por elas, velozes, reduzindo não por cautela aos pedestres, mas por medo de colidir com a moto que vem em sentido contrário. Assim, irreverentes e livres como manda o figurino carioca, tal como o senhor que abre a janela e arremessa a lata de refrigerante na via, ajudando o gari a ter emprego; mostrando que não se submete aos outros os motoqueiros fogem do trânsitdo pelo acostamento, calçadas ou corredores. Aliás, as motos são compradas justamente por terem essa qualidade mágica. O Código de Trânsito, que talvez seja a única lei razoável e sem “farinha pouca, meu pirão primeiro”? Quem se importa? Com um café se resolve, se der alguma zebra.
À estiada da tempestade, no trecho de trânsito mais tranquilo nosso motorista corre atrás do tempo perdido. Para o conforto e segurança de sua viagem, acelera ao máximo que pode, divertindo os passageiros em uma simulação de montanha-russa, e ajudando-os a se exercitarem ao tentarem se manter sentados enquanto a inércia empurra-os sem dó para fora de seus assentos e os que estão de pé, para o assento dos outros. A gentileza é ainda maior. Enquanto a cobradora repete a história do rapaz dos vinte e cinco centavos, o motorista segue cortês aos braços estendidos, molhados da chuva de há pouco, que suplicam por serem resgatados da longa espera pelo transporte que os levaria de volta para casa e mantém a velocidade sem parar nos pontos de ônibus. Ele tem um horário a cumprir, afinal.
Do fim de Quintino em diante, até Osvaldo Cruz ou Bento Ribeiro, o trânsito dá um nó novamente e as buzinas voltam a ressoar, bem como aqueles chiados misteriosos que os motoristas dos ônibus fazem. Ecoam os corteses comentários de “Tá cego, ô corno?”, “Sai da frente, viado!” ou “Vai pilotar um fogão!”
Quando enfim chega no destino, duas horas e quarenta minutos depois do ponto final, o malandro caminha mais dez minutos até em casa, usando a via como trajeto. Na calçada só cabem os carros que estacionam sobre elas, ali e em todo o subúrbio da cidade. Afinal, onde parar o carro? De que jeito encontraria vaga? O pedestre pode desviar pela rua. Tem que ser muito chato e sem noção para reclamar do esforcinho de desviar.
Chega então em casa, janta e, esgotado, dorme sorridente ao som do mar transmitido pela televisão durante a novela.

5 comentários:

  1. Gostei demais...perfeito até na dose de sarcasmo.

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  2. Obrigado, Dudu. Eu me esforço para não ser azedo demais! Esse é o outro retrato, que nós conhecemos mas não são postais.

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  3. Bom mesmo. Estive por alguns minutos dentro do onibus também.. e deu saudade do Rio de Janeiro, claro!.. todas estas peculiares experiências são o que há de mais autêntico.. E o Rio de Janeiro continua lindo, afinal. É, meu querido, "o Rio está bombando, mudou muita coisa nos últimos dois anos". É o que se escuta por aqui. Eu fico só imaginando.. pra quem? De fato, é um esforço não se tornar azedo.. Abraço!

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  4. amei Diego!!!Me senti uma passageira naquele ônibus...é, a maioria não conhece o Rio na real

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  5. Assim como o Brasil são muitos Brasis, o Rio também são muitos. Talvez até fosse melhor se tivesse se desmembrado em mais de um município para não ter se tornado tão grande e concentrado. É reflexo da concentração de riqueza, conhecimento, etc. do país inteiro.

    As mudanças... bom, daria outra crônica... O que tenho certeza de que mudou bastante foi o custo de moradia. De qualquer forma, o mais importante e o que mais lisonja é saber que consegui transportá-las para dentro do ônibus!

    Beijos

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