Exausto. Depois de um longo dia de trabalho o
suplício do desumano calor causticante do Rio de Janeiro se faz ainda mais
pesado. No verão, além da temperatura desconhecer limite, ainda o sol demora a
se pôr. Ao sair do trabalho ele ainda brilha forte e sarcástico, bem na altura
dos olhos, forçando-nos a quase fechá-los para tentar enxergar. É isso um
perigo numa cidade de trânsito tão caótico e “livre”; onde o sinal vermelho não
é garantia da para dos carros e as bicicletas acham que não são veículos e
correm displicentes na contra-mão ou zigue-zagueando nas calçadas, para o
pavor principalmente dos idosos. Com isso e o sol que cega, atravessar a rua é
arriscado. Assim, suando e o tempo todo secando a testa e a nuca com a mão ou a
camisa, segue-se ao ponto de ônibus.
“Ao ponto de ônibus?!” Deve estar se perguntando o
não-carioca. Rio de janeiro: praia, calor, mulheres bonitas (nenhuma cidade
anuncia seus homens bonitos), samba, futebol, etc. É crença quase generalizada
que com esses dias mais longos “o carioca” aproveita para ir à praia. Já não
gosta de trabalhar... Mas, quem gosta? Nas areias de Copacabana, Ipanema,
Leblon, na pedra do arpoador amontoam-se milhares e milhares de pessoas! Porém
se ouvirá tanto português quanto não-português. E os que falam português serão
paulistas, mineiros, gaúchos, etc., em gozo de férias. O carioquês talvez se
ouça no vendedor de picolé e no atendente do quiosque de preços módicos para
fazer o turista feliz. Essa imagem exportada talvez só exista graças aos que
acreditam nela e vêm ao Rio, às praias, para conhecer essa imagem. Lá,
lotam-na, formando-a. Talvez... O carioca, coitado; malandro, esperto, sacana,
do gingado e do samba nunca foi, em sua maioria, ao Cristo ou pegou o bondinho
do Pão-de- Açúcar, tampouco sabe como se chega à Lagoa ou São Conrado. Sai do
trabalho, se amontoa no ponto de ônibus, tentando uma vaga à sombra e depois
torce para que ele para ao sinal. Se não pegar no ponto final, vai em pé. Se
pegar, provavelmente vai em pé, ainda assim.
O malandro, sem chapéu branco e com sapato apertando
o pé, paga a passagem – que somado ida e volta, se pegar dois ônibus por trecho,
gasta diariamente em transporte 1,5% do salário mínimo – e viaja espremido até
chegar em casa após as duas a três de trânsito que separam os em média 15
quilômetros entre o trabalho e a moradia. Mas, o carioca, bem humorado,
divertido, transforma o translado em alegria. É sempre uma aventura garantida.
Sim. O trajeto dentro daquele caldeirão normalmente empresta alguma curiosa
distração, um fato inesperado para ajudar a passar o tempo. Pode ser um assalto
ou um tiroteio, é verdade, mas às vezes são coisas amenas, um acidente, um
atropelamento ou qualquer outra bobagem. Ah, e claro, acompanhado pelo serviço
de bordo dos ambulantes que entram e saem dos ônibus ou circulam pelos
corredores do congestionamento. Tudo isso à trilha sonora do radinho do
motorista ou do celular de algum passageiro simpático, que, com a receptividade
carioca, quer emprestar entretenimento aos que não tem um telefone musical e,
entediados e tristes, dormem. Da Avenida Beira Mar a Marechal Hermes, ah, nunca
se passa em branco.
Nesse trajeto o ônibus acelera, freia, para, xinga e
se arrasta pela Av. 1º de março, estagna no mergulhão e em marcha Largo alcança
a Praça Mauá somente para manter o mesmo ritmo, agraciando-nos com o poder admirar
a inefável paisagem dos armazéns abandonados, pichados, do odor de urina e da
realidade dos que dormem na rua. Bem, mas ao conforto de se estar protegido da
violência do sol pela sombra do viaduto da perimetral – que, registro na
história, ainda existe; ao menos por enquanto.
Por ali em algum lugar subiu um passageiro que agora,
cordial, grita com a cobradora, que, animada e feliz como todo carioca, o manda
tomar em tal lugar e ir para tal outro, que não vale a pena repetir. O motivo
do entrevero? Bem, muitas vezes se paga a passagem com um tal cartão com o
vernacular nome de Riocard, o qual combina inclusive com os tais recém
inventados BRT – Bus Rapid Transit. No entanto não orna com a tupiniquinzice do
VLT – Veículo Leve sobre Trilhos.
Ocorre então que a cobradora não tinha troco porque o
passageiro pagou com a fortuna de vinte reais os dois e setenta e cinco da
passagem. Faltam vinte e cinco centavos e o rapaz diz que vai descer na
Rodoviária, que o aroma do entroncamento daquele rio lindo com a Baia de Guanabara
mostra estar próxima. Então, a moça, simpática, em atenção ao cliente e
preocupada com a imagem do serviço, alerta-o que melhor seria se tivesse
deixado de ser sedentário e tivesse caminhado, pois era perto. No final da
história ele desce sem a moeda suplicada como indulgência. A partir daí a
altercação é contada e recontada meia dúzia de vezes até o fim da viagem aos
passageiros que entram. Se repetida como de fato aconteceu, aí é outra
história. Nos recontares o cosmopolitismo e a tolerância cariocas se desvelam.
Queria o troco, era um viado – ressaltando que ninguém o questionara sobre a
orientação sexual. Mas adiante era o branquelo do olho claro, que “se fosse
preto”, dizia, “iam logo dizer que é favelado, bandido, arruaceiro do Jacaré.”
Passando pelo tal Jacaré, um dos lugares mais
tranquilos da cidade, limpo, organizado e cheiroso, uma passageira faz um sagaz
comentário com outro passageiro que se senta ao seu lado. O ônibus estava bem
em frente ao local onde em Manguinhos foram construídas umas moradias populares
– mais semelhantes a gaiolas, mas, um teto; afinal, pobre não tem direito de
reclamar, já que insiste em viver – e também uma biblioteca, além de escola e
posto de saúde. Uma das poucas e raras obras públicas em áreas como essa. Eis
que a tal passageira, uma moça, de uns 40 anos aparantemente, profere
indignada: “Não sei pra quê! Gastam um dinheirão com essa biblioteca. Faz aqui
pra quê? É demagogia. Ninguém vai usar! É jogar dinheiro público fora. Em vez
de Biblioteca tinha que ter é uma delegacia que a população ia aproveitar muito
mais.” Ao que parece a moça sabia ler, pois identificou a palavra biblioteca no
letreiro em frente ao edifício.
Lá pela abolição desaba a chuva de verão a testar o
escoamento de água da cidade, mesmo já sabendo no que dá. A cidade mostra que
as administrações municipais tinham grandes preocupações históricas e,
portanto, não quiseram deixar esquecer as origens do nome do município. O “São
Sebastião” ninguém lembra mesmo, ainda bem. A suburbana, no entanto, - que deixarei para
as próximas gerações chamar pelo nome que hoje constam nas placas – assim como
tantas partes da cidade, às chuvas de todo verão lembra-nos o rio de janeiro.
Aquele que os ônibus cortam audaciosos, encharcando os pedestres, a despeito
dos guarda-chuvas, nas belas ondas que fazem ao correr sobre as límpidas águas
acumuladas na pista.
Os motoqueiros logo sobem nas calçadas e seguem por
elas, velozes, reduzindo não por cautela aos pedestres, mas por medo de colidir
com a moto que vem em sentido contrário. Assim, irreverentes e livres como
manda o figurino carioca, tal como o senhor que abre a janela e arremessa a
lata de refrigerante na via, ajudando o gari a ter emprego; mostrando que não
se submete aos outros os motoqueiros fogem do trânsitdo pelo acostamento,
calçadas ou corredores. Aliás, as motos são compradas justamente por terem essa
qualidade mágica. O Código de Trânsito, que talvez seja a única lei razoável e
sem “farinha pouca, meu pirão primeiro”? Quem se importa? Com um café se
resolve, se der alguma zebra.
À estiada da tempestade, no trecho de trânsito mais
tranquilo nosso motorista corre atrás do tempo perdido. Para o conforto e
segurança de sua viagem, acelera ao máximo que pode, divertindo os passageiros
em uma simulação de montanha-russa, e ajudando-os a se exercitarem ao tentarem
se manter sentados enquanto a inércia empurra-os sem dó para fora de seus
assentos e os que estão de pé, para o assento dos outros. A gentileza é ainda
maior. Enquanto a cobradora repete a história do rapaz dos vinte e cinco
centavos, o motorista segue cortês aos braços estendidos, molhados da chuva de
há pouco, que suplicam por serem resgatados da longa espera pelo transporte que
os levaria de volta para casa e mantém a velocidade sem parar nos pontos de
ônibus. Ele tem um horário a cumprir, afinal.
Do fim de Quintino em diante, até Osvaldo Cruz ou
Bento Ribeiro, o trânsito dá um nó novamente e as buzinas voltam a ressoar, bem
como aqueles chiados misteriosos que os motoristas dos ônibus fazem. Ecoam os
corteses comentários de “Tá cego, ô corno?”, “Sai da frente, viado!” ou “Vai
pilotar um fogão!”
Quando enfim chega no destino, duas horas e quarenta
minutos depois do ponto final, o malandro caminha mais dez minutos até em casa,
usando a via como trajeto. Na calçada só cabem os carros que estacionam sobre
elas, ali e em todo o subúrbio da cidade. Afinal, onde parar o carro? De que
jeito encontraria vaga? O pedestre pode desviar pela rua. Tem que ser muito
chato e sem noção para reclamar do esforcinho de desviar.
Chega então em casa, janta e, esgotado, dorme sorridente
ao som do mar transmitido pela televisão durante a novela.
Gostei demais...perfeito até na dose de sarcasmo.
ResponderExcluirObrigado, Dudu. Eu me esforço para não ser azedo demais! Esse é o outro retrato, que nós conhecemos mas não são postais.
ResponderExcluirBom mesmo. Estive por alguns minutos dentro do onibus também.. e deu saudade do Rio de Janeiro, claro!.. todas estas peculiares experiências são o que há de mais autêntico.. E o Rio de Janeiro continua lindo, afinal. É, meu querido, "o Rio está bombando, mudou muita coisa nos últimos dois anos". É o que se escuta por aqui. Eu fico só imaginando.. pra quem? De fato, é um esforço não se tornar azedo.. Abraço!
ResponderExcluiramei Diego!!!Me senti uma passageira naquele ônibus...é, a maioria não conhece o Rio na real
ResponderExcluirAssim como o Brasil são muitos Brasis, o Rio também são muitos. Talvez até fosse melhor se tivesse se desmembrado em mais de um município para não ter se tornado tão grande e concentrado. É reflexo da concentração de riqueza, conhecimento, etc. do país inteiro.
ResponderExcluirAs mudanças... bom, daria outra crônica... O que tenho certeza de que mudou bastante foi o custo de moradia. De qualquer forma, o mais importante e o que mais lisonja é saber que consegui transportá-las para dentro do ônibus!
Beijos