quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O senhor na cantina


Pela segunda vez aquele senhor entra, dá uma volta na cantina e sai em seguida. É evidente que procura algo. Caminha pelo corredor num vai-vem desorientado. Para e se recosta sobre o parapeito do terceiro andar do prédio, mas apenas para se afastar, encontrar outra breve parada num banco ou apoiado em uma pilastra antes de retomar o impaciente ir e vir. Na terceira vez que entra na cantina,  pergunta à moça do caixa: “O professor Mário vem hoje?”. “Ele costuma vir aqui. Não sei se hoje exatamente, mas é provável que sim.” responde solícita, apesar de ser raro receber tão cordial tratamento por parte dela. Talvez a universidade estar vazia por ser adiantado dezembro tenha-lhe diminuído o trabalho, amenizado o dia e, com isso, concedido uma pitada de bom-humor.

Após a esperança aumentada com a informação de que “ele costuma vir aqui”, o senhor toma uma cadeira e senta à mesa com a postura ereta, mas as mãos atadas uma à outra, escondidas entre as pernas, porém chamando atenção a si com o irrequieto movimento dos polegares e o esporádico esfregar da palma de uma nas costas da outra a secar o suor da ansiedade, para então retomar a posição do esconderijo.

O senhor era baixo e calvo. As entradas eram compridas e um rastro de ralo cabelo ao centro indicava quase o antigo limite da testa, hoje alongada. Os fios brancos eram compridos e pendiam quase até as sobrancelhas, lisos e ligeiramente arqueados. A barba, entretanto, era comprida e cheia, conservando um pouco do brilho ruivo que deve ter colorido também o cabelo na distante juventude. Que olhos tristes eram aqueles encrustados abaixo do suor que lhe entumescia a testa que brigava e não se decidia entre franzir-se ou não naquele rosto enrugado! O olhar perdia-se ora sobre a mesa, ora a observar hipnotizado o corredor onde ninguém passava. Uma atmosfera tão sombria que umedecia os olhos e quase não era possível não se comover com aquele nítido sofrimento amargo, sufocado, reprimido por décadas. Quem quer que o notasse sentiria uma dificuldade em engolir a própria saliva, aquele constrangimento por trás dos olhos e a pressão próxima ao nariz.

Quem, todavia, descobriria o que de fato origina isso? Quem arriscaria um palpite e lhe seria certeiro às aflições do subconsciente? Quem quer que fosse, por melhor alscutador, por mais exímio perscrutador, seria incapaz de alcançar-lhe o fundo dos seus pensamentos, o mais íntimo do seu ser formado ao longo de árdua e incógnita existência.

Há vinte e cinco anos não via Mário. Agora Professor Doutor Mário. Na época era-lhe ainda um menino, por mais que já fosse adulto. Não gostava de lembrar, porém era a mais recente e viva lembrança de Mário. Então tinha impreterivelmente de agarrar-se a ela para poder senti-lo ali. Como Mário estaria agora, não sabia. Teria filhos? Teria casado? Depois de mais de duas décadas, qualquer coisa poderia ter acontecido. Procurou na internet e descobrira tão-somente que Mário havia estudado bastante e, hoje Doutor, lecionava na Universidade. Tinha vários artigos e diversos livros publicados. Parece que estudara no exterior e era renomado internacionalmente. Como isso o alegrava! Uma pena as circunstâncias da vida terem impedido de continuarem a manter contato. Mas, quem escolhe a vida que tem? Quem pode determinar todos os rumos a se tomar? Até onde atribuir culpa não é injustiça? Desconhecimento das causas e do poder de interferência que elas têm?

Pareciam-lhe brilhar os olhos marejados de saudade. A expansiva força que não se pode conter ou controlar, que nos força de dentro para fora e sentimo-la como se agisse fisicamente. Esse impelimento transforma-se na ansiedade que observamos no início; na inquietude.

O Sucesso, porém, amenizava-lhe a dor. Se não havia sido capaz de ajudar, ao menos o distanciamento não atrapalhara. Não era o suficiente para demover a aflição de todo esse tempo em que se cria ser irremediável o obnubilamento de um na vida do outro. Agora imaginava uma chance de poder novamente clarear e quiça refazer a ligação que outrora os uniu. O filho ter seguido tão firme caminho inegavelmente enchia-lhe de orgulho. Mas não queria que parecesse por isso, para participar do mérito, por interesse, no intuito de expô-lo como troféu-genético, talvez. Não era por isso. Antes, desesperado por revê-lo, aconselhado por um amigo, usou um buscador da internet para tentar localizá-lo e foi assim que descobriu parte da trajetória profissional do filho desaparecido no mundo.

Na verdade, em todos esses vinte e cinco anos aquele senhor remoía o arrependimento pelo afastamento, todavia não sabia o que fazer. O orgulho era demais para fazê-lo se aproximar. Quem diria que com o tempo o orgulho que tinha passaria a nutri-lo positivamente em relação ao filho?! À época do desentendimento, eram ambos imaturos. O filho tinha razão para isso. Era muito novo, então compreensível, ainda que incorreto. Já ele, bem... Era pai de um filho que já trabalhava e entraria na faculdade. Nada havia que desculpasse. Falhara e tinha de se desculpar. Não tinha coragem. Levou todo esse tempo dia a dia recolhendo e acumulando forças para isso. Contraditoriamente tinha de passar por cima de si mesmo para conseguir suplicar perdão e por fim libertar-se da culpa e do remorso que lhe pesavam sobre os ombros e nunca lhe permitiram a leveza de viver. Esperava ali, então, resgatar a liberdade, ou melhor, conquistar a leveza de consciência.

Há poucos meses um exame indicou e uma série de outros comprovou o avançado câncer no estômago. Aquilo que lhe doía não era mera gastrite ansiosa causada pela angústia. Talvez um dia tenha sido, mas de úlcera fez-se câncer que à altura do diagnóstico já contaminava pulmão, intestino, laringe e não se sonhava mais com hipóteses de cura. Era fatal e aceitava com tranquilidade. Estava acostumado à dor, podia-se dizer, e também não temia morrer. Felizmente isso não o perturbava. A ciência dos últimos dias, das derradeiras oportunidades de realizar o que tinha vontade, foi o impulso que precisava.

Não o importunava o ambiente totalmente desconhecido, esse, universitário, nem o calor que castigava nessa tarde decembrina. No mundo que fora dele acontecia, ou fingia, importava-lhe única e exclusivamente o Professor Doutor Márcio. Nada mais. Por isso, discreto e ensimesmado aguardava-o. Para desafogá-lo do indescritível peso de uma ferida que em uma geração não cicatrizou e da culpa de tê-la provocado. Aos poucos toda a região em volta do machucado necrosava contaminando os arredores. O perdão seria a cura. No entanto, o professor Mário Nunca chegou.


Pelo menos não enquanto eu estava também na cantina. Felizmente! Afinal, se ele chegasse talvez essa história jamais fosse escrita. Talvez eu saberia que o real motivo que fazia aquele senhor aguardar o professor Mário era que a nota do período anterior não havia sido lançada e isso estava a impedi-lo de colar grau. Mas, sendo isso, não teria graça o conto.

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