Pela segunda vez aquele senhor entra, dá uma volta na
cantina e sai em seguida. É evidente que procura algo. Caminha pelo corredor
num vai-vem desorientado. Para e se recosta sobre o parapeito do terceiro andar
do prédio, mas apenas para se afastar, encontrar outra breve parada num banco
ou apoiado em uma pilastra antes de retomar o impaciente ir e vir. Na terceira
vez que entra na cantina, pergunta à
moça do caixa: “O professor Mário vem hoje?”. “Ele costuma vir aqui. Não sei se
hoje exatamente, mas é provável que sim.” responde solícita, apesar de ser raro
receber tão cordial tratamento por parte dela. Talvez a universidade estar
vazia por ser adiantado dezembro tenha-lhe diminuído o trabalho, amenizado o dia
e, com isso, concedido uma pitada de bom-humor.
Após a esperança aumentada com a informação de que
“ele costuma vir aqui”, o senhor toma uma cadeira e senta à mesa com a postura
ereta, mas as mãos atadas uma à outra, escondidas entre as pernas, porém
chamando atenção a si com o irrequieto movimento dos polegares e o esporádico
esfregar da palma de uma nas costas da outra a secar o suor da ansiedade, para
então retomar a posição do esconderijo.
O senhor era baixo e calvo. As entradas eram
compridas e um rastro de ralo cabelo ao centro indicava quase o antigo limite
da testa, hoje alongada. Os fios brancos eram compridos e pendiam quase até as
sobrancelhas, lisos e ligeiramente arqueados. A barba, entretanto, era comprida
e cheia, conservando um pouco do brilho ruivo que deve ter colorido também o
cabelo na distante juventude. Que olhos tristes eram aqueles encrustados abaixo
do suor que lhe entumescia a testa que brigava e não se decidia entre
franzir-se ou não naquele rosto enrugado! O olhar perdia-se ora sobre a mesa,
ora a observar hipnotizado o corredor onde ninguém passava. Uma atmosfera tão
sombria que umedecia os olhos e quase não era possível não se comover com
aquele nítido sofrimento amargo, sufocado, reprimido por décadas. Quem quer que
o notasse sentiria uma dificuldade em engolir a própria saliva, aquele
constrangimento por trás dos olhos e a pressão próxima ao nariz.
Quem, todavia, descobriria o que de fato origina
isso? Quem arriscaria um palpite e lhe seria certeiro às aflições do
subconsciente? Quem quer que fosse, por melhor alscutador, por mais exímio
perscrutador, seria incapaz de alcançar-lhe o fundo dos seus pensamentos, o
mais íntimo do seu ser formado ao longo de árdua e incógnita existência.
Há vinte e cinco anos não via Mário. Agora Professor
Doutor Mário. Na época era-lhe ainda um menino, por mais que já fosse adulto.
Não gostava de lembrar, porém era a mais recente e viva lembrança de Mário.
Então tinha impreterivelmente de agarrar-se a ela para poder senti-lo ali. Como
Mário estaria agora, não sabia. Teria filhos? Teria casado? Depois de mais de
duas décadas, qualquer coisa poderia ter acontecido. Procurou na internet e
descobrira tão-somente que Mário havia estudado bastante e, hoje Doutor,
lecionava na Universidade. Tinha vários artigos e diversos livros publicados.
Parece que estudara no exterior e era renomado internacionalmente. Como isso o
alegrava! Uma pena as circunstâncias da vida terem impedido de continuarem a
manter contato. Mas, quem escolhe a vida que tem? Quem pode determinar todos os
rumos a se tomar? Até onde atribuir culpa não é injustiça? Desconhecimento das
causas e do poder de interferência que elas têm?
Pareciam-lhe brilhar os olhos marejados de saudade. A
expansiva força que não se pode conter ou controlar, que nos força de dentro
para fora e sentimo-la como se agisse fisicamente. Esse impelimento
transforma-se na ansiedade que observamos no início; na inquietude.
O Sucesso, porém, amenizava-lhe a dor. Se não havia
sido capaz de ajudar, ao menos o distanciamento não atrapalhara. Não era o suficiente
para demover a aflição de todo esse tempo em que se cria ser irremediável o
obnubilamento de um na vida do outro. Agora imaginava uma chance de poder
novamente clarear e quiça refazer a ligação que outrora os uniu. O filho ter
seguido tão firme caminho inegavelmente enchia-lhe de orgulho. Mas não queria
que parecesse por isso, para participar do mérito, por interesse, no intuito de
expô-lo como troféu-genético, talvez. Não era por isso. Antes, desesperado por
revê-lo, aconselhado por um amigo, usou um buscador da internet para tentar
localizá-lo e foi assim que descobriu parte da trajetória profissional do filho
desaparecido no mundo.
Na verdade, em todos esses vinte e cinco anos aquele
senhor remoía o arrependimento pelo afastamento, todavia não sabia o que fazer.
O orgulho era demais para fazê-lo se aproximar. Quem diria que com o tempo o
orgulho que tinha passaria a nutri-lo positivamente em relação ao filho?! À
época do desentendimento, eram ambos imaturos. O filho tinha razão para isso.
Era muito novo, então compreensível, ainda que incorreto. Já ele, bem... Era
pai de um filho que já trabalhava e entraria na faculdade. Nada havia que
desculpasse. Falhara e tinha de se desculpar. Não tinha coragem. Levou todo
esse tempo dia a dia recolhendo e acumulando forças para isso.
Contraditoriamente tinha de passar por cima de si mesmo para conseguir suplicar
perdão e por fim libertar-se da culpa e do remorso que lhe pesavam sobre os
ombros e nunca lhe permitiram a leveza de viver. Esperava ali, então, resgatar
a liberdade, ou melhor, conquistar a leveza de consciência.
Há poucos meses um exame indicou e uma série de
outros comprovou o avançado câncer no estômago. Aquilo que lhe doía não era
mera gastrite ansiosa causada pela angústia. Talvez um dia tenha sido, mas de
úlcera fez-se câncer que à altura do diagnóstico já contaminava pulmão,
intestino, laringe e não se sonhava mais com hipóteses de cura. Era fatal e
aceitava com tranquilidade. Estava acostumado à dor, podia-se dizer, e também
não temia morrer. Felizmente isso não o perturbava. A ciência dos últimos dias,
das derradeiras oportunidades de realizar o que tinha vontade, foi o impulso
que precisava.
Não o importunava o ambiente totalmente desconhecido,
esse, universitário, nem o calor que castigava nessa tarde decembrina. No mundo
que fora dele acontecia, ou fingia, importava-lhe única e exclusivamente o
Professor Doutor Márcio. Nada mais. Por isso, discreto e ensimesmado
aguardava-o. Para desafogá-lo do indescritível peso de uma ferida que em uma geração
não cicatrizou e da culpa de tê-la provocado. Aos poucos toda a região em volta
do machucado necrosava contaminando os arredores. O perdão seria a cura. No
entanto, o professor Mário Nunca chegou.
Pelo menos não enquanto eu estava também na cantina.
Felizmente! Afinal, se ele chegasse talvez essa história jamais fosse escrita.
Talvez eu saberia que o real motivo que fazia aquele senhor aguardar o
professor Mário era que a nota do período anterior não havia sido lançada e
isso estava a impedi-lo de colar grau. Mas, sendo isso, não teria graça o
conto.
Parabéns pelo trabalho. Sucesso sempre.
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