segunda-feira, 19 de julho de 2010

Breve História da humanidade

Em certo momento dos tempos, um bando de humanos que convivia em conjunto passeia por uma floresta. Um de seus integrantes tem à mão um cesto de maçãs. Neste instante o nº. 2 do grupo lhe pede uma, como de costume. Porém, desta vez, o nº. 1, que carrega o cesto, reflete: Por que eu, se sou do grupo o que corre mais rápido, deveria fornecer-lhe uma maçã se posso tê-las todas para mim? Ante este pensamento, nega o pedido e declara que, a partir daquele momento, todas as maçãs são dele e ninguém mais, senão ele, poderá usufruir delas. Assim, do egoísmo surge a propriedade.

O nº. 2, absorto com a negativa inusitada, completamente enraivecido, saca seu tacape e golpeia o nº. 1 na cabeça, tão rapidamente que não o permite correr, tomando para si o cesto. Agora, da propriedade nasce o roubo.

Quando o nº. 1 saca também o seu tacape preparando-se para o confronto que, em razão da equivalência de força de ambos, resultaria na morte de um deles e na impossibilidade de o vitorioso garantir a posse do cesto, o nº. 3 interfere para mediar a situação. Esclarece ao nº. 1 e ao nº. 2 o fato e sugere dividirem o cesto de maçãs. Os dois concordam em fazê-lo. Então, o nº. 3, tendo obtido sucesso em amansar o conflito, solicita a divisão do cesto em três por ter evitado o combate e a divisão é feita. Desta forma, da possibilidade de prejuízo mútuo, devido ao poder igual entre as partes envolvidas, surge a justiça, e junto com ela, o judiciário com suas custas processuais, ou seja, a parte de maçãs que cabe ao nº. 3.

A partir deste momento, convencionarei chamar o nº. 1 de propriedade, o nº. 2 de roubo e o nº. 3 de justiça, atrelando cada um às suas crianças e representando-as graficamente entre aspas.

A esta altura da história, o nº. 4, ao ver que tudo se acertou e todos foram contemplados com a possibilidade de desfrutar das maçãs, acreditando que o compartilhamento, como o era até pouco, fora voluntário, aproxima-se dos três e requer sua parte, tendo negado o pleito. Indignado, lembrando do que aconteceu, decide seguir o exemplo do nº. 2, ou seja, do “roubo”, e saca seu tacape. Porém, agora o poder não é mais equivalente, pois seria necessário golpear três. Insistindo em negar ao nº. 4 o acesso às maçãs, “propriedade”, “roubo” e “justiça” sacam seus tacapes e surram o nº. 4, expulsando-o do convívio por sua ousadia em querer parte das maçãs para sua sobrevivência. Assim nasce a exclusão social, fruto da força da aliança repressiva do “roubo”, “propriedade” e “justiça”, criando, com isso, ao mesmo tempo, o que viria a ser por eles chamado de “polícia”.

Tendo se livrado do nº. 4 pela exclusão social gerada pela força conjunta do “roubo”, “propriedade” e “justiça”, ou seja, pela “polícia”, estes passaram a fazer uso dela contra qualquer um que se aproximasse e, com isso, defendiam suas posses. Entretanto, certo dia, acerca-se-lhes uma fêmea que, aconselhada pelo nº. 4, “exclusão social”, que encontrara no caminho, ao contrário das outras das quais a “polícia” deu conta, não queria participar da divisão das maçãs, aparentando somente estar interessada em conviver com eles e vale-se, para isso, da sedução. Após uma noite de satisfação sexual para os três, a fêmea acorda com os três lhe servindo maçãs. Da lascívia com “propriedade”, “roubo” e “justiça”, encorajada pela “exclusão social”, surge a “prostituição”.

Desde então, seguiram-se várias noites de prazer gerados pela “prostituição”, até que, “propriedade”, tal como fez com o cesto de maçãs no início da história da humanidade, declara que “prostituição” é direito de uso somente dele. “Roubo”, também como no início da história, puxa seu tacape, sendo que, desta vez, antes do golpe, “justiça” o convida a conversar em separado. Após longa conversa “justiça” o convence a deixar “propriedade” achar que tem “prostituição” só para ele enquanto ambos encontram-se com “prostituição” sem ele saber. Este entendimento de “justiça” com “roubo” eles chamam de “traição”.

Ao retornarem, explicam para “propriedade” que aceitam, acatam seu direito. Da união entre “propriedade” e “prostituição” surge a “família”, sendo esta a forma que vai se considerar como perfeita até os nosso dias atuais. E, do acordo entre “justiça” e “roubo”, ou seja, da “traição”, para encontrarem-se com “prostituição” sem “propriedade”, nasce, no mesmo instante em que o casamento, ato que constituiu “família”, o “adultério”.

Desse modo, do egoísmo de “propriedade” no seu desejo por posse; do vínculo entre “roubo”, “propriedade” e “justiça”, gerando “exclusão social”, que encoraja a “prostituição”; do fato de “propriedade” acreditar que “prostituição” pode ser sua posse, criando a imagem da fêmea como objeto, desconsiderando todas aquelas que convivem com “exclusão social” e sobrevivem do fruto de seu trabalho; do anseio de mais posses de “propriedade” fomentando o surgimento de “traição”; da soma de tudo isso, nasce o que hoje conhecemos por “sociedade”.

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