Não sinto saudades, como diz o poeta,
Da aurora da vida, infância querida
Que hoje já descansa perdida no tempo.
Eu sentia à incerteza da adolescência inquieta.
Adulto, tornei a viver como criança
Sem saudades e sem negar o fastio
Das responsabilidades impostas e...
De tudo o mais com que temos de lidar.
Tornei a descobrir um mundo novo
Mesmo ao olhar para as coisas mais conhecidas,
Transformando a realidade a cada instante.
Ter o prazer de correr pela rua
Só para sentir, despreocupado e livre,
O vento suave a tocar-me a face nua.
Poder brigar com um amigo e
Estar certo de nunca mais falar com ele
Para cinco minutos depois abraçá-lo.
Tornei a me permitir conversar com os sonhos
Da mesma forma que com todas as coisas
E viver no País das Maravilhas.
E dizer que odeio ao crer ser ódio o que sinto,
E dizer que amo ao crer ser amor o que sinto,
Ainda que ambos sejam no mesmo instante.
Encarnei o Espírito de Peter Pan
Para nunca deixar de brincar com o real
E transformá-lo até deixar de sê-lo.
E até que os tons de preto e branco
Sejam então as cores com que pintamos
E que a vida seja realmente brincadeira.
Às vezes de mau gosto a pregar-nos peças.
Às vezes é de esconde-esconde
Onde tudo que se precisa tem de procurar
Pois está em algum lugar, bem escondido.
E até que o real se torne sonho
E não o contrário, pois não há nada pior
Que um sonho que seja tão superficial e monótono
Que se possa tornar real.
Estou farto de realidade.
Não quero que meu sonho se torne real.
Quero que o real seja como meu sonho.
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