- Opa, tudo bom? Quanto tempo?! Ainda mora na Glória?
- E aí, quanto tempo mesmo! Mudei da Glória faz quase dois anos. Agora estou na Tristeza. É mais afastado, fico mais longe do trabalho, mas lá a vida é mais tranquila, mais calma, pelo menos na casa pra onde fui. Não gosto de apartamento. Preciso ter um quintal arborizado e poder ver o céu, ouvir os grilos cantando escondidos em algum lugar da grama. A glória ainda tem muito movimento, muita agitação.
- Então sinal de que melhorou. Que bom. Eu também queria sair desse tumulto da região central. Apesar da comodidade de acesso às coisas, é muito barulho de carro, ônibus, etc, só que ainda continuo no mesmo lugar. Tudo na mesma. A única coisa que muda são os filhos que crescem. E dão trabalho! Mas, no fundo é bom.
- Ah, com certeza! Ver aquele pingo de gente crescendo dá até esperança.
- Veio pagar as contas então?
- Não.
- O que faz na fila da lotérica então?
- Pois é... O prêmio da loteria acumulou... Vim arriscar um jogo.
- Que isso?! Justo você? Acreditando nessas coisas agora?
- Na verdade não. Continuo sem acreditar. Ainda não entendi muito bem o que eu estou fazendo aqui. O bom é que não ganhar não gera a sensação de derrota, de perda e a expectativa, o ânimo que dá a aposta até a hora do sorteio, acaba valendo a pena.
- Pior... Eu também vim aqui pra fazer uns jogos. Não fazia a menor idéia de que números apostar. Tem gente que aposta sempre nos mesmos números a vida inteira. Eu nunca apostei,. Não posso fazer isso. Tem gente que tenta usar a lógica também, como se houvesse algum meio de adivinhar a aleatoriedade do acaso. Ainda tem que desconfiar de quão aleatório é o sorteio, de fato. Vez por outra acontecem coisas estranhas, como alguém ganhar seguidas vezes. Resolvi dar oportunidade ao destino. Joguei o número de ordem do ônibus que eu vim e os números da placa.
- Fez um jogo só, então?
- Não. Fiz vários. Alterei a ordem dos algarismos, embaralhei, apliquei fórmulas... Já que é aleatório, digamos que tentei usar a própria aleatoriedade que o dia de hoje me mostrou, afinal, o sorteio é logo mais, à noite.
- Pode ser uma alternativa de estratégia.
- Vai que dá certo...
- Né? O que eu acho curioso é, por exemplo, aquele senhor lá na frente já quase para ser atendido, que deve ter passado quase uma hora na fila e mal se aguenta de pé – na hora de aposta idoso não tem fila preferencial. O que ele quer com o dinheiro? Daqui a pouco bate as botas e, se não tiver herdeiro, devolve tudo para o Estado.
- Ora, mas ele também tem o direito de tentar a sorte!
- Claro, mas não de tirar a minha!
- Mas não vai tirar. Se os dois ganharem, dividem o valor total. Quem tira é o próprio Estado que pega parte do dinheiro de volta em imposto. Também, para quê tanto dinheiro? Divide com alguém!
- Tantas empresas com tantos donos milionários, bilionários, porque eu não posso ser também? Talvez eu seja o único a conseguir um milhão honestamente, sem roubar, sem sonegar, sem explorar ninguém.
- Explorando só a expectativa dos outros de sair da pobreza.
- Bom... Sei que não vou ganhar nem ninguém que está aqui nessa fila. Talvez um daqueles magicamente sortudos, que ganha diversas vezes na loteria, como o delegado que ganhou dezessete vezes. Imagina quantos outros casos não descobertos podem haver! A aposta só serve para dar esperança até a hora em que sai o sorteio. Até lá você fica imaginando o que poderia fazer com o prêmio: Viagens, aplicações, investimentos, doações... E bem pensando, dois reais é até um valor baixo a se pagar pela esperança.
- Vou lá que é minha vez. Prazer em revê-lo. Até mais.
- Até mais! Se ganhar, lembre de mim!
se você jogar e ganhar, lembra de mim também...kkk
ResponderExcluirLoteria é um modo de exercitar a esperança. Sabe lá, se ela atrofia e vc nunca mais a tem prontamente.
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