quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Farto

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Sessenta e quatro é o número de corpos deitados invisíveis no chão da rua que contei hoje da janela do ônibus no trajeto de casa para o trabalho. Mas, de que importa? Afinal, o Rio vai sediar as Olimpíadas, o Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol Sessenta e quatro moradores de rua porque fui ‘bonzinho’ com o Governo e contabilizei somente as pessoas que estavam deitadas no chão, sobre papelão, sob cobertores... Sessenta e quatro também porque eu vim do lado direito do ônibus. Sabe-se lá quantas não deixei de ver do lado esquerdo.

Resolvi fazer essa contagem depois de reparar um aumento na quantidade de pessoas dormindo na rua, gente sem esperança, sem futuro, sem presente e sem passado. Sessenta e quatro porque não passei pelo Largo de São Francisco, onde eu poderia contar mais umas quinze ou vinte, local onde mesmo a igreja pôs grades em frente à escadaria para impedir que os pobres, miseráveis necessitados chegassem perto do edifício da instituição sujando-o. Cidade maravilhosa...

Cidade sede de eventos internacionais que se crê alguma coisa, que almeja ser uma grande cidade, só tem chances de ser uma cidade grande, maior ainda, cada vez mais inchada. Péssima infraestrutura, ônibus, trens e metrô lotados e caros nas vias congestionadas. Brasil, o país do futuro... de novo! Hospitais e escolas precárias. Se você quer direito à vida, tem que pagar por isso. E caro! Altíssimos preços de venda e locação de imóveis, pura especulação imobiliária. Preço dos mais caros do mundo para viver numa cidade onde até talvez La Paz tenha uma estrutura mais adequada. Porém, para as Olimpíadas estamos preparados! Claro, corrida com obstáculos é o que mais se pratica no dia a dia de tentativa de sobrevivência na cidade. É como se com isso nos dissessem: Brasileiro, seu povo pobre, aqui não é pra você. Carioca, não compre, não alugue. Favelize, ocupe!

O que se precisa é somente UPP para conter a violência... não a policial, não a contra a mulher, não nenhuma das violências discriminatórias, não a violência do trânsito, do desrespeito, não a violência da exploração do trabalho, dos juros dos empréstimos dos bancos, das manutenções de conta a custos exorbitantes, não a violência de não se poder ter esperança ou de a esperança ser um sonho longínquo, uma quimera, que não se concretizará. Não só as obras para os grandes eventos internacionais, também os preços são para inglês ver (e comprar, porque para brasileiro não é possível).

E que problema tem isso? Nada é tão ruim que não possa piorar! E vai. Com o custo de moradia, com os despejos das casas próprias pelas obras da Copa, cada vez aumentará o número de pessoas a viver nas ruas. Parece que se decidiu combater a obesidade com a carestia dos alimentos, de todos os produtos básicos nas prateleiras dos supermercados, ou decidiu-se combater a pobreza matando-a de fome, condenando-a á morte por impossibilidade de acesso aos meios básicos de subsistência. Talvez a tentativa seja expulsá-la para o mais longe possível com os preços inacessíveis de moradia. De preferência para fora da cidade... Ê malandragem carioca, jeitinho brasileiro...

Já passou da hora de fazer uma marcha pelo direito à vida. Vamos fazer uma? Que não é uma daquelas caminhadas pela paz, mas um protesto contra a especulação imobiliária; contra a carestia dos alimentos e demais produtos de necessidade básica; contra a violência policial; contra a discriminação de raça, de classe, de sexo, de gênero, de nacionalidade, de origem, etc.; contra as intromissões na vida particular quando aquilo não causa prejuízo a ninguém; protesto contra o preço das passagens dos superlotados e, não raro, demorados ônibus, trem, metrô, barca; contra a exploração do trabalho, contra a desigualdade social, contra a corrupção também; contra a escravidão e péssimas condições de trabalho; contra a intocabilidade das empresas que nos roubam cotidianamente com péssima prestação de serviço – quando prestam de fato – com sonegação de impostos que poderiam ser investidos em educação e saúde pública, entre outros; contra o abaixar de calças do (des)governo antes interesses alheios ao da população; protesto contra os baixos salários que não dão conta de manter vivo meia pessoa; contra o salário mínimo que vale, quando muito, um aluguel em casa distante; contra o país do futuro, pelo direito ao presente. Por uma democracia real já (como o lema adotado pelos espanhóis), para avisar aos governantes que eles não nos representam.

Preço de Europa para qualidade de vida... Que qualidade de vida?

Como escrito naquela pichação que recém comentei ter lido na Leopoldina – que disseram ser de uma música do Legião Urbana – antes eu sonhava, hoje já nem durmo.

FARTO!

"É preciso que compreenda que não existe liberdade sem igualdade e que a realização da maior liberdade na mais perfeita igualdade de direito e de fato, política, econômica e social ao mesmo tempo, é a justiça." – Mikhail Bakunin

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