quarta-feira, 16 de junho de 2010

O drama de um homem só


O Drama De Um Homem Só

“O próprio acontecimento que o lança no desespero, imediatamente revela que toda sua vida passada tinha sido desespero.”
Sören Kierkegaard

Neste quarto iluminado a meia-luz pela lua que se reflete sobre a madeira da mesa, de modo que tudo toma uma tonalidade melancólica, em preto e branco, jaz deitado, composto quase que somente por carne, afastado da possibilidade de sentir vontade, o corpo de um homem: eu. Abandonado por qualquer esperança, a parca restante força que possuo é capaz de permitir-me refletir e fazer com que eu me levante em direção à minha querida escrivaninha, situada no lado oposto ao que me encontro do cômodo. Após imenso sacrifício chego lá e, fazendo um barulho estridente que fere tudo que há dentro de mim, doendo-me os olhos secos, abro a gaveta onde descansa a vida e o que vier depois. Seja lá o que for não será pior do que agora neste lugar opressivo. Sem medo, com sonhos, com visão de uma talvez única saída ignoro o que poderá vir.
Vida? Não sei o que é. Nunca vivi. De qualquer forma acho que não é necessário ter vivido para saber o que é vida. O conhecimento não precisa ser empírico... Apenas aprecio o sangue correr pelas minhas veias, mas a vida já se esvaiu pelas lágrimas há tanto tempo que me é impossibilitado, o ato de voltar atrás para contar. A luz do sol que brilha em algum lugar lá fora há muito não conhece o meu rosto que não consegue mais ter qualquer sinal de um semblante de júbilo. Conte, como eu contei, os momentos tristes da vida e compare com os momentos felizes, e se não bastar para você, que tal testar a grandiosidade e a influência destes em sua vida, e note; os tristes são e sempre serão maiores. Quem sabe se por beleza ou por outra coisa qualquer. Talvez minha alma seja pequena (ou não), porque nada, ao que parece, vale a pena. Agora eu estou aqui, preparando minha arma para a liberdade.
Onde foram parar as tão desejadas boas notícias que alegravam todos que a ouvissem? Os amigos de verdade? Onde e em que momento do passado enterramos o sorriso? A felicidade? Por que nos deixamos aborrecer pelo que nós mesmos fizemos? Não deveríamos tê-lo feito certo? Então por que não consertamos se achamos que está errado? Será por querermos sempre culpar a outrem? Onde foi parar a emoção que envolvia as massas em sentimentos uníssonos e embriagava de exultação, como vemos nos filmes e livros de história? Estão todos mortos, ou apenas fingem-se assim? Alguém, diga-me! Por favor... É certamente em vão... Caso soubéssemos voltaríamos para buscá-los, entretanto, ninguém faz idéia de onde eles estejam. Ninguém se deu conta de que vendemos nossa liberdade, felicidade, entre outros, por futilidades que sequer individualmente almejamos. Sendo que destas tolices que adquirimos nunca usufruímos porque estamos sempre lutando para conseguir mais delas. E os que perceberam, entre eles eu, a terrível situação de desleixo na qual nos encontramos tornam-se infelizes e sozinhos e não fazem nada, perdidos cada um no seu canto protegidos sob o manto da friagem da noite. Tudo se tornou acre e vazio e monótono e entediante e taciturno e sei lá mais o que.
Eu agora te diria meu nome, mas, de que importa? Sou só mais um, como você que se esconde debaixo de uma falsa força e nos momentos íntimos revela a criança amedrontada que não consegue dormir e chora a madrugada toda a procura dos pais que não encontra presentes nunca e acaba dormindo de tanto choramingar. Igual a todos e mais nada! Não adianta fingir que contigo é diferente já que não pode enganar a si mesmo. Somos apenas a sombra vazia daquilo que esta a nossa volta, querendo abandonar a si mesmo para um modo de ver e de ser que não é nosso e impede-se de entregar-se a si mesmo. Todavia, nunca mudará, pois não se sabe o que realmente está além, aquilo que, talvez, verdadeiramente rege a este todo de seres sem face, sem alma, sem nada mesmo que tenham tudo... Se é que existe algo. Sinceramente sou despossuído de qualquer vontade de continuar minha existência compactuando com a vileza deste mundo hipócrita que finge ser cego ante suas próprias desgraças para tentar viver melhor... Arre! Tomo-me de profundo asco com tal circunstância deprimente, deplorável... Sequer consigo lembrar disto sem embrulhar-me o estômago!
Os românticos sonham e morrem e são tidos como loucos pelo senso comum por fugirem da realidade (realidade?) - entenda-se como românticos não apenas aqueles do período literário do romantismo, mas todos aqueles que navegam em devaneios e anseios impossíveis. E nós? Morremos e nunca sonhamos! Loucura é permanecer vivo sem poder sonhar, presos a uma necessidade de estar ligado intimamente à razão e passar grande parte do tempo, senão todo, tentando simplesmente manter-se vivo neste mundo sem fazer a menor idéia do porquê, se é que precisa haver um porquê também! Mas, pensar sobre tais questões parece-me o mínimo para entender-se como ser pensante. O primeiro passo para ser um ser completo é a inquietação e reflexão a respeito daquilo que está a sua volta. Ah! Termino meus miseráveis dias só, pois ousei sonhar e pensar... A lua e seu esplêndido fulgor não ofuscam a luz negra de desalento e tristeza da real liberdade e sua dor. Se é que não estou enganado de novo, se é que pode existir a extraordinária e eternamente idealizada real liberdade. Existem coisas que jamais poderão ser entendidas pela racionalidade. Quem sabe possam ser compreendidas apenas pela confluência de sentimentos surgidos e apreciados de maneira indescritível pela solidão? Ah se eu pudesse ter consciência de todas as reações misteriosas da natureza...
Eu acordei e fui capaz de compreender que não há sequer um homem livre a caminhar sobre esta terra erma, e creio não valer a pena viver sendo escravo do que se julga como si mesmo e do mundo ausente de fantasias que o cerca, destruído por desejos pequenos e pela tremenda pressa sob a égide da qual se encontra a humanidade de hoje e, quem sabe de sempre? A ciência e tecnologia, com a ambição insana apagaram o fogo da magia da beleza da arte da poesia da esperança de viver em um mundo que pode fazer você se sentir bem. De maneira nenhuma sou contra avanços tecnológicos, desde que não atropelem a individualidade e nossas doces quimeras que amenizam o desproporcional amargo de durar.
Nesta vida insignificante de sentido algum, senão de reflexão sem importância, pensei que não agüentaria compactuar com essa destruição que se estabelece à volta de todos nós até que eu completasse trinta anos de velhice (Isso mesmo! Desde sempre velhice! E no sentido mais pejorativo possível, talvez até mesmo além do imaginável). Agora com a arma já pronta, lembro desses fatos e vejo que eu estava errado, uma vez que agora, pouco depois dos vinte, sei que de agora não passarei... O tempo corre como uma lesma e o pensamento como jato e quanto mais você pensa, descobre que o tempo só existe para aquilo que acaba (não quero que meus sonhos e minha alma acabem! Se pudéssemos ser só pensamentos.... ah!). A cada pensamento o mar de tristeza afoga-te devido a sua paciência já, há muito, ter se exaurido e sua garganta cansado de tanto gritar surdamente aquilo que te aflige e ninguém da atenção; sua decepção... apenas sua...
Embora sintam-na todos, a desilusão, eu percebo, tento entender como ela faz para agir sorrateiramente em todos nós. E tenho o direito de escolher fugir da escravidão, arriscar tornar-me livre pelo menos uma vez, batalhar pelo que realmente acredito... Sim! Eu posso o que quiser comigo mesmo já que não sou de ninguém, senão de minha alma extremamente esgotada pala lassidão... e você também é provido deste direito pelas leis da natureza. Não se deve nascer privado de direitos de liberdade individual, de pensamento e de ação acima de tudo. Já que falei em tempo um pouco mais acima, em tempo falo e faço-te compreender a velocidade incomensurável do pensamento. Pense em todas a sua vida, veja todas as tristezas, saudades do que nunca terá e até de alguma felicidade perdida e muito distante. E então? Acho que você não demorou nem um ano para lembrar de toda a sua vivência. Penso talvez ser melhor deste modo; uma estratégia da bela vida para diminuir a eterna aflição que sempre será viver. E eu apenas perco o meu tempo, já que sou covarde e terminarei no início e continuarei esse ciclo que se repete há longos e intermináveis anos (décadas? Talvez...), inteiramente só... com a arma ao meu lado na escrivaninha, lamuriando-me de tudo e de todos... espero que você tenha mais sorte... Com o sol que retorna agora ao amanhecer ou com a noite que o sucederá como de costume, se é que você consegue acreditar nisto de que o dia inevitavelmente surge posteriormente à escuridão noturna. Eu desisto.


***

Quem sou?*

Sou a amarga lágrima última
Que verte dos olhos da esperança,
Que silenciosa e triste e súbita
Ruma ao solo, vagarosa e mansa.

Eu sou da alegria o derradeiro suspiro
Exalado com pesar e sofreguidão
Antes de apagar-se o círio
Que a faz tombar ao chão.

E sou, de jazer, a vontade
Residente em cada alma muda.
Desgraça que em todos bate.

Sou o aceno de partida
Que de pranto o coração inunda.
Sou a existência absurda.


*D’O Eu Mais Íntimo

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