segunda-feira, 4 de junho de 2012

Depois do fim, café, cigarro e trabalho*



Aqui, sentado debaixo da sombra das árvores
Mirando o mar tranquilo
Nessa terra distante
Posso ser quem eu queira.

Se decido, sou Juan
O operário que ficou desempregado
E foi desalojado pelas obras do governo
E agora vive nas ruas.

Também, se eu decido, sou a puta Manuela
A qual espera na esquina um outro cliente
Enquanto tentar recordar-se de uma poesia de Borges,
Uma que trata de um encontro

Em uma esquina ou cruzando uma rua
Onde se despede de alguém pela última vez
Sem saber que o faz.
E aí nesse lugar vem Juan

Quem com o dinheiro que sobrou
Paga por seu serviço
Em busca de um pouco do amor
Que a vida lhe negou.

Então tomam um taxi.
E nesse instante sou Martin
O taxista paraguaio, imigrante ilegal,
O qual os vai levar até o motel

Onde passarão a noite,
Ele como Carlos Magno,
Ela como a Rainha Elizabeth,
Compartindo o tempo e o mundo

Praticando o amor, mesmo sabendo que não durará
Ela finge que o ama
E ele a ama crendo que ela finge.
Interrompe-me um mendigo

Pedindo um cigarro
Que eu sequer fumava
Posto que aquele com o cigarro nas mãos
Não poderia ser eu

Já que eu era a lua que sorria
A observar o amor verdadeiro do casal.
Verdadeiro porque cada um não esperava do outro
Receber o que dava.

Dei-lhe um e notei que nem mesmo havia árvore
Em cuja sombra eu sentava
Somente um barco só ao mar
Flutuando ao gosto da maré, do vento e das ondas.

Transformei-me em vento a decidir o rumo
Que tomariam todos
Por ser o motor das chuvas e, com isso,
Dos alimentos e das sociedades, humanas ou não.

Enquanto eu pensava nisso,
Todavia voltei a mim mesmo
Que caminhava pela orla
Tão sem preocupações

Que já estava distante da cidade.
Comecei a retornar para buscar umas folhas
E também uma caneta
Para tentar escrever o que eu pensava

Certo que sairia outra poesia,
Porque eu já esquecia as palavras
Porém, de que importa?
Seria igual a mim

Nesse café
Tomei meu último trago e paguei a conta
Já que havia horas que eu estava ocupando uma cadeira
Perdido em nada, olhando pela janela
As pessoas que se apressam nas ruas.

Saí, acendi um cigarro
Me queimei com ele
Joguei a guimba no lixo
Senti como se eu tivesse jogado parte de mim mesmo
E voltei ao trabalho.


 * Poema que se segue a "A Rua"

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