Diga-me
que não adianta mais,
Que
não dá mais tempo... ele passou.
Diga-me
que não há mais como, onde, porque,
Que
não faz mais diferença.
Diga-me
que só sobrou existir,
Que
não terei mais voz para poder fazer silêncio,
Que
não há mais possível,
Que
não há mais vida e poesia.
Explica-me
que nos rendemos.
Convença-me
de que é melhor assim
E
para nós não há mais querer ou poder.
Incuta-me
que o que podia ser fogo já queimou.
Não
me deixa iludido. Fomos vencidos.
Mostra-me
que sobrou nada.
Ensina-me
a aceitar perder,
Ainda
que seja a razão de viver.
Prova-me
que esses entulhos, essas ruínas
São
daquilo que nós construímos.
Não
me faça acreditar sozinho
E
avisa-me que meu idioma é outro.
Tira-me
essa dor que é pensar,
Que
é sonhar, que é querer, que é ver...
Que
é ouvir o murmúrio mudo das almas
Acorrentadas
à impossibilidade de nossas forças.
Grita-me
que a luz que brilha, fere.
Empurra-me
para o outro lado, que ensurdeci.
Joga-me
água gelada ao rosto...
Pois
ainda continuo sonhando.
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