segunda-feira, 14 de maio de 2012

Até Quando?



Uma senhora de idade avançada,
Nas primeiras horas da manhã
Observa desde sua sacada
Os transeuntes, doutores, cunhãs

Jovens a caminho da escola,
Vidas correndo, indo e vindo...
Por tudo seu olhar rola,
Passeia desatento, quase findo.

Não é capaz de encontrar nada
A não ser as próprias pessoas
Que lhe recordem a infância passada.
Tudo novo. É impossível que essa ausência não lhe doa.

Quem terá sido essa mulher?
O que quer que tenha sido, foi.
Hoje, a ela, não vê pessoa qualquer.
O rosto plácido não esconde que dói.

Somente o tédio a preencher o dia
E daquilo que gostava, consegue fazer nada...
Sonha, vive de lembrança do que fazia
E tomara que nisso haja mais que sacada.

Espera... Espera desejosa e relutante
Tal qual aquela da tarde no parque,
Senhora muito idosa, cadeirante,
Que enquanto o tempo adia o embarque

Deve sentir-se ofendida pela enfermeira
Que a trata como se fosse criança.
Não creio haver quem isso queira,
Mas o silêncio imposto cansa

E obriga a falar deixando de lado os brios,
A experiência, o orgulho, o conhecimento,
A história que escondem os olhos já sombrios,
A riqueza e o consequente sofrimento de dentro.

A riqueza sem reconhecimento sofre.
A vida ali foi prescrita, proscrita,
Enjaulada, presa num cofre...
E se antes era sorte, agora, desdita.

Dia após dia... noite.

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