segunda-feira, 7 de maio de 2012

Revisão


É possível lembrar daqueles dias
Em que só se via a terra.
Sequer imaginava que debaixo dela
A grama já principiava o crescimento.

Quando sugiram os primeiros sinais de verde
A curiosidade se deteve sobre eles;
Aquele formidável tapete macio
Fazia-se parecer inocente novidade.

Com o dia a dia, cai no esquecimento.
Simultaneamente muita coisa acontece
E há muito mais com que se refestelar
Do que o que já é passado velho e sabido.

Até que uma hora, cedo ou tarde,
Se admira ter se tornado também
Curiosidade já visitada; Passado
Velho e sabido por tudo e por si mesmo.

A Biologia explica o metabolismo.
A Psicologia e a Psicanálise, a mente.
Mas, saber só sabe quem sente.
Quem sente, percebe que sente e pensa nisso.

No mais dos casos, passa inconscientemente,
Apesar de em todos deixar a mesma marca.
O processo é o mesmo, porém não se pode vê-lo,
Apenas se se é ciente de que acontece.

Se sente, pressente...
Então se está entre a juventude e a velhice,
Esta preparação para a morte, não o sono.
Este pode ser ensaio para a morte,
Contudo é preparação para a vida.

Depois, porém, se torna meio de espera,
Quando o ensaio da vida
Já se passou dos epílogos e posfácios
E estão em fase de revisão.

Às vezes, os posfácios e epílogos
Lhe são tirados repentinamente da mão
Sem que seja possível concluí-los.
Às vezes nem se tem idéia deles.

A revisão... Besteira.
Revisa-se o que não pode ser mudado.
A escrita é inapagável.
As rochas demoram a erodir...

São quase eternas.
Na revisão sobressaem os erros,
Tortura o incorrigível das falhas.
Seria tão ruim pular essa parte?

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